É difícil explicar como é “fabricado” um campeão. Mais complicado ainda é saber porque um atleta consegue índices excelentes enquanto um colega de piscina que treina na raia ao lado, sob o comando do mesmo técnico, não consegue atingir o mesmo desempenho. Dedicação, ritmo de treinamento, estrutura do clube, comissão técnica, recursos financeiros, equipamentos adequados. Tudo isso faz a diferença, mas para o atleta, o que realmente difere o “fenômeno” do dedicado é mesmo o dom.
A natação de Bauru possui duas equipes bem treinadas, no Bauru Tênis Clube e na Luso. Atletas de ambas as entidades concorrem nos melhores campeonatos do país. E eles conseguem bons resultados. César Denari, de 22 anos, e Mariana Nakagaki, do BTC, são exemplos. O rapaz já chegou até mesmo a eliminar de uma final o medalhista pan-americano Lucas Salatta. Já a garota de 19 anos, ficou entre as 14 melhores do país no último Troféu José Finkel, onde foram escolhidos os membros da seleção que disputou o Pan do Rio.
Denari já pode ser considerado veterano. Ele faz natação competitiva há 12 anos já nadou no Rio de Janeiro, pelo Vasco, e hoje consegue tirar seu sustento com a natação. Na última edição dos Jogos Regionais, ele alcançou o índice de maior medalhista da edição, com sete ouros. No último José Finkel ele foi o sétimo do país nos 200 metros medley e o nono nos 400 metros, mesmo estilo. Já no Maria Lenk, conseguiu a 13ª posição nos 200 metros e a 11ª nos 400 metros. Resultado invejável, tendo em vista como concorrente nada mais do que Thiago Pereira, campeão de todas as provas citadas acima.
Já Mariana faturou nada menos do que seis ouros nos Jogos disputados em São Manuel no final do último mês. Já no campeonato brasileiro que participou em maio último (José Finkel), foi a 14ª nos 100 metros costas, enquanto a campeã foi ninguém menos do que Fabíola Molina.
Resultados invejáveis de dois atletas que começaram a nadar desde pequenos, incentivados pelos pais, que deram todo o suporte inicial. Índices excelentes, levando-se em consideração o fato de treinarem quase todos os dias da semana em dois períodos, abdicarem de baladas e afins, fazerem dieta rigorosa e ainda terem que conciliar tudo isso com a universidade, família, amigos e namorados.
Para Mariana, o que falta para deslanchar no esporte é mais apoio. “Nosso treinamento aqui não deixa a desejar se comparado a outros clubes. É claro que alguns detalhes fazem a diferença, mas acho que o fator principal é incentivo financeiro, para podermos ter mais estrutura para viajar mais, competir mais e acompanhar o nível dos melhores”, afirma.
Denari aponta alguns quesitos estruturais que a seu ver influencia um pouco no resultado. No entanto, ele acredita que o principal é a aptidão. “O treino dos atletas é quase o mesmo. É claro que o desejo do atleta e o esforço fazem diferença, assim como a sustentação de técnicos, fisiologistas, nutricionistas e afins. Mas o que vale mesmo é o biotipo”, diz.
Já o técnico Thiago Sakamoto aponta o detalhe como diferencial para atletas como os citados acima figurarem na elite da natação brasileira. “Vontade, competência e qualidade, a maioria tem. Mas na verdade o que falta é estrutura financeira para conseguir manter uma equipe de profissionais focada no desenvolvimento das habilidades dos atletas em todos os níveis”, acredita. “Hoje o Thiago Pereira, por exemplo, recebe cerca de R$ 18 mil de salário. Quem aqui pode se dar ao luxo de mergulhar de cabeça no esporte?”, indaga.