José Carlos de Souza, proprietário do “Ponto Chic”, em São Paulo, prestigiando a festa do sanduíche bauru no aniversário da cidade, abriu o evento. Eu, minha mulher Janira e dona Deborah Mello de Pádua Neves, esta com seus bens vividos 87 anos, fomos prestigiar a festa, a convite da jornalista Luciana Raquel Gonçalves Silva Bergamini.
No correr do evento, fomos a ele apresentado e José Carlos não conhecia pessoalmente dona Deborah, mas disse-lhe, emocionado, que foi numa lição de sua “cartilha”, referenciando o seu pioneiro restaurante e o sanduíche (introduzido por Casimiro Pinto Neto na culinária local, receita depois alastrada por todo o Brasil e parte do mundo), que ele criou o “prato da Deborah”.
Conheço dona Deborah há mais de 30 anos e ela é uma das mais belas amizades de minha família. Sempre sai conosco quando em Bauru, pois reside em São Paulo e, nos cafés que freqüentamos, raro não ter uma pessoa que foi sua aluna. Nessas saídas, nos premia com agradáveis conversas, plenas de flagrantes da história local.
Fomos almoçar um dia na “Pousada Tibiriçá”, do Senize. Boa parte do pessoal presente, numa morna tarde de domingo, conhecia dona Deborah, quer como aluno ou como cidadão. Ali, ela contou-nos, que começara a lecionar como professora, no Barrocão, em 1938, não muito distante de onde estávamos. E lembrava da grande e inesperada movimentação na poeirenta estrada de terra, no dia em que Getúlio Vargas visitou a Fazenda Val de Palmas.
Nascida em Maracaí, filha de Pedro Mello Pádua e da professora Sebastiana Salles Magalhães (a primeira que ministrou cursos preparatórios em Bauru), dona Deborah casou com Othon Neves e tiveram três filhos: a médica Mércia Lúcia , o advogado Waldemar e a psicóloga Ivone Maria.
Contou-me que sua vocação para o magistério nasceu quando tinha 3 anos e acompanhava sua mãe, quando ela ia lecionar na roça, em Laranjal Paulista. Normalista, o início de sua carreira deu-se no 2.º Grupo Escolar da Vila Falcão, como substituta e dali para a Água do Paiol, depois Paulistânia, Piratininga, sendo a última escola o Instituto de Educação “Ernesto Monte”. Aposentada, manteve um curso de admissão: “Externato Paulista”.
Transformada numa das maiores escritoras de livros didáticos do Brasil, nunca perdeu sua humildade. Em 1951, começou com suas cartilhas na Gráfica São João. No ano seguinte, foi editá-las na Tilibra até 1970, quando foi para o Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas (Ibep), em São Paulo. “Cidadã Bauruense”, “Cidadã do Centenário de Bauru”, seus livros estão arquivados inclusive na Biblioteca da cidade de Nova York. Culta, toda conversa com ela transforma-se em aprendizado espontâneo.
Na véspera do dia 1 de agosto de 2007, fomos com ela até o Anfiteatro Vitória Régia. O nosso carro estacionou distante do local e nem 19h eram. Em passos regulares, caminhamos rumo à festa do aniversário. Comemos um “bauru” cada. Dona Deborah foi muito festejada por amigos presentes. Conosco, ao sairmos, ficou o compromisso de nos encontrar em São Paulo, ir ao Ponto Chic e comer o “prato da Deborah”, que deve ser, como ela, simples, belo e com muita substância, merecendo futura certificação.
O autor, Irineu Azevedo Bastos, é colaborador do Opinião