Articulistas

Para que serve um poeta?


| Tempo de leitura: 3 min

“Para nada...”, respondeu Pablo Neruda ao se ver impotente, mesmo do alto do seu Prêmio Nobel de Literatura, para evitar que o Chile mergulhasse na barbárie com o ditador Augusto Pinochet. Confinado em sua casa em Isla Negra, enquanto o câncer roia o autor de “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”, milhares de chilenos eram levados às masmorras, assassinados a tiros e vítimas de torturas.

A mesma pergunta fiz a mim mesmo na quinta-feira, quando a família Franciscato entregou à Biblioteca Pública Municipal os exemplares das obras completas de Rodrigues de Abreu que mandou reeditar. Para que seve um poeta, afinal? Justificava Alcides Franciscato, no prefácio, que os poemas “corriam o risco de se perder no tempo e no espaço por falta de apoio”. Mas por que um empresário, afastado da política gastaria dinheiro em algo que não faz parte do seu negócio e nem é da sua obrigação? O próprio Rodrigues de Abreu, se não foi “um fingidor” como Fernando Pessoa, dizia em “Mar Desconhecido”: “Se eu tivesse tido saúde, rapazes/ Não estaria aqui fazendo versos”. Tornou-se poeta porque a morte o espreitava. Era tísico, doença incurável à época. Os tuberculosos eram incapazes de produzir, abatidos pela doença que tornava o simples respirar, um sacrifício. Restava-lhes a leitura e o debulhar de mágoas infindas, com ou sem métricas. “É um poeta...” Virou expressão negativa para rotular o inteligente, mas ineficiente. Mas, para que serve um poeta, ou um mico-leão dourado? Surpreende que haja ainda gente (pouca) que pretenda preservá-los...

A resposta, talvez, esteja na explicação de outro poeta, Joaquim Simões, autor da Apresentação da obra reimpressa de Rodrigues de Abreu. Diz ele, mal sintetizando, que a “sociedade hedonista, que vive dos prazeres dos sentidos, sobre o fio da navalha do consumismo” precisa de uma catarse. Essa oportunidade de purgação nos é dada pelos artistas. Por isso precisamos preservá-los e, por extensão, tudo aquilo que nos encanta na natureza ou fazem parte da memória. Platão também expulsou os poetas de sua República. Numa época em que não havia livros os poetas cantavam versos a públicos vastos e ruidosos, deles fazendo espetáculo e instrumentos de comoção. Platão expulsou os poetas, mensageiros da fantasia, para – como faz em seus diálogos – conservar como “única verdade” um punhado de interpretações rígidas e unilaterais. Ainda no Renascimento, Dom Sebastião, rei de Portugal, agiu de forma inversa: não só acolhe Camões no palácio como lhe financia a publicação da obra. É incrível que em nosso mundo pragmático e tecnocrático, o poeta, a poesia e a memória cultural (saudosismo, se quiserem) sejam vistos como coisas exóticas. Para que serve um poeta lírico e “chorão” (elegíaco, para ser mais elegante) como Rodrigues de Abreu? Para divertir, entreter, emocionar, ou para perturbar e desafiar? A poesia não serve para nada. “Um poema é como um gol” – na alegoria lulística do crítico literário Wilson Bueno. Quanto vale um gol na sua alma torcedora? O drible, a firula, a dança de pés e pernas, o avanço na pequena área, a curva, no ar, da bola e o erro do goleiro. Um gol aposta no erro do goleiro: sem ele, um erro, um gol não se faz.

Outro dia li uma nota no jornal sobre o classificado publicado no El Mercúrio, de Santiago, oferecendo à venda um poema que Neruda deixou gravado na casa de uma amiga. Ela comemorava aniversário. Neruda reclamou do som alto da banda que animava a festa. A aniversariante cortou rente: “Se você não está gostando, pode ir embora”. Comovido e auto-crítico com sua própria rabugice, resolveu purgar a culpa e escreveu num pedaço de madeira, ali mesmo, um poema de 14 versos que diz, entre outras coisas: “Perdoe o poeta/ Um pouco o que lhe passa/ Aos poetas e aos loucos/ Dá-lhe tua casa”. Aliás, quanto vale um poema? Dêem um valor em moeda corrente a este pequenino Hai-Kai do diabólico japonês Kobaisahi Issa (1763-1828): “Ao Fuji sobes/ pequeno caracol/ mas sobes”. É gol! Gol não tem preço!

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

Comentários

Comentários