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Entrevista da semana: Terezinha Zanlochi, guardiã da história

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 10 min

A Entrevista da Semana traz uma persona querida no meio acadêmico bauruense. Professora de história há 35 anos na Universidade do Sagrado Coração (USC) e doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Terezinha Santarosa Zanlochi é um exemplo de amor ao ensino e à preservação de cada pedacinho da história nacional.

De origem humilde e rural, ela traz em seu sobrenome “Santarosa” o peso da nobreza italiana. A ascendência vem do Conde de Santarosa, que lutou ao lado do rei Victor Emmanuel pela unificação italiana nos idos de 1800. Perdidos os “laços nobres”, a família de Terezinha a ensinou que o trabalho é o maior dos bens.

Hoje, aos 59 anos, a mestra mantém a beleza de sua juventude com o aditivo da experiência e da história feita aqui e a todo momento. Das roças de café do Oeste Paulista e de memórias como a de uma participação no picadeiro do “Circo Bombril”, ainda pequena, ou a apresentação do programa radialístico “Carrossel da Cidade”, às salas de aula vai um pouco do lado “desconhecido” da mestra.

Sintonize em “ZYS5 Rádio Clube de Ourinhos, uma das emissoras coligadas”, para ouvir a voz da professora Terezinha, com 12 anos, ou sente numa carteira em frente ao quadro negro.

Jornal da Cidade – Como foi a sua infância?

Terezinha Santarosa Zanlochi – Eu nasci no campo em uma comunidade próxima a Araçatuba, no Oeste Paulista. Minha família é de imigrantes italianos que acompanharam a marcha do café. A história começa aqui em Pirajuí, onde meu pai conhece minha mãe. Depois, já casados, eles partem para Mirandópolis, minha cidade natal. Do Oeste Paulista minha família foi para o norte do Paraná, ainda acompanhando a expansão da cafeicultura. Eu tinha entre 4 e 5 anos e minha mãe se preocupava com a minha educação. Naquela época, havia um preconceito muito grande em relação às escolas paranaenses e eu fui enviada ao Interior de São Paulo para estudar. Entrei na escola muito cedo, tinha 4 anos quando ingressei na primeira série, isso porque a Escola Rural precisa de um número de alunos para funcionar. A professora morava em minha casa e eu a acompanhava até a escola, ia com meus livros e assistia à aula, fui registrada na escola como se tivesse 7 anos e não 4. Já na época do Ginásio (hoje a partir da quinta série), passei a estudar no colégio das Irmãs da Imaculada Conceição, em Ourinhos. Eu sempre quis cursar uma faculdade, mas precisava ser um lugar em que eu acreditasse, escolhi e quis ir para a Universidade de São Paulo (USP). Porém, havia um problema, meus pais continuavam muito pobres e eu precisei trabalhar. Minha infância foi muito feliz, uma das lembranças foi a de uma peça de teatro escrita por mamãe para um circo que parara na cidade “Jesus na casa do pobre”, segundo José Amilton Pereira França Neto, o Tubinho.

JC – A senhora foi trabalhar em quê?

Terezinha – No final dos anos 60, prestei um concurso para o banco Banespa em nível estadual e passei. Trabalhei em Ourinhos. Tenho cada história de discriminação feminina deste período, que hoje são até hilárias. Fui da primeira turma de mulheres a ingressar no banco.

JC – Como foi a mudança da infância na roça para a maior cidade da América Latina?

Terezinha – Realmente difícil. Na roça, quando você tem pais muito trabalhadores a fartura é grande: pomar, porcos, frangos, uma vaca holandesa que nos oferecia leite... Do ponto de vista da alimentação tudo se tinha. Quando mudamos para a cidade, por vontade de minha mãe que exigia que estudássemos, as coisas ficaram mais difíceis. Meu pai ficou desempregado e minha mãe, que costurava, começou a formar sua clientela. Morávamos em uma casa próxima ao cemitério de Ourinhos, que coincidentemente era uma zona de meretrício. Minha mãe costurou muito para as prostitutas, que eram pródigas no pagamento e nas sobras de tecido que se transformavam em lindos vestidos para mim. Foi nesta época que eu aprendi a valorizar e respeitar a vida dessas mulheres. Logo depois dessa época difícil, meu pai foi contratado para fazer o ajardinamento das escolas de educação infantil da cidade. Hoje, meu pai é nome de rua em Ourinhos: Dionísio Santarosa. Tive medo de ir para São Paulo, mas encarei meus medos e a USP, lá eu fiz minha graduação na época mais difícil dos últimos 40 anos.

JC – Como era estudar história em plena ditadura? A senhora participou dos movimentos estudantis?

Terezinha – Eu cursei minha graduação de 1968 a 1971, nos anos de chumbo, desde o decreto do Ato Institucional n.º 5 até seu pleno funcionamento. Na Universidade de São Paulo, naquela época, havia hora para começar a aula, nunca para terminar. Eram tempos difíceis e que requeriam cuidados. Sempre participei de grupos de jovens da Igreja Católica mal vistos pelo governo militar. Eu, vinda da roça, ficava sob a guarda das instituições religiosas, cantava no coral da igreja, era líder de uma comunidade de adolescentes e participava de um grupo de jovens. Nós ficávamos na mira dos militares, mas as orações de minha mãe devem ter sido muito fortes, porque eu escapei de situações difíceis.

JC – Dá para contar uma história desse tempo?

Terezinha – Eram grupos de resistência, é difícil falar dessas histórias... Eu tenho um documento de um de meus colegas de militância, falecido há alguns anos, em que ele conta como foi preso, quem estava encarcerado e tudo o que acontecia.

JC - Os estudos da senhora são influenciados pelo social. Fale um pouco sobre isso.

Terezinha - E eu fiz o meu mestrado em cima da vida desses padres que ficaram presos e pertenciam a (diocese de ), Botucatu num momento nevrálgico da política brasileira. A sociedade estava amordaçada e os 30 padres de Botucatu eram vanguardistas. Quando o bispo da cidade pede a sua ‘aposentadoria’ , Dom Zioni, então bispo de Bauru é indicado. Botucatu era uma diocese progressista, enquanto Zioni se reclinava a uma postura mais tradicional, era zeloso do catolicismo. Para o bispo de Bauru, a indicação traria o arcebispado, para o colegiado de padres isso criaria um choque ao crescimento das pastorais. E essas pastorais, tão mal vistas pelos militares, nada mais eram que as pastorais de hoje, mas há 40 anos isso causava um impacto. O resultado foi o livro “Padres Rebeldes? O caso de Botucatu”. Já no doutorado, fiz uma observação da base social da igreja que é feminina, há muito mais mulheres do que homens evangelizando. Ponto que quero continuar a discutir no pós-doutorado: a qualidade e as particularidades da catequese, porque a pergunta que ficou é: se é a mulher que evangeliza e ela é tratada pela igreja como uma cidadã de “segunda categoria”, qual é o Deus que ela passa para o catequisando? Um Deus de pouca amplitude, porque ela vê um Deus punitivo.

JC – Sobre a atuação feminina dentro da Igreja e a discriminação que a senhora disse ter sofrido quando prestou o concurso para o Banespa: como é esse choque da quebra de barreiras “masculinas”?

Terezinha– Meu tipo físico de certa maneira agrada um grande número de pessoas então, no banco, havia aqueles que paparicavam, mas ao mesmo tempo impingiam “castigos” como trabalhos pesados. Naquele tempo eu não entendia isso como discriminação, porque eu encarava aquilo como trabalho. Por outro lado, eu tive colegas que se negavam a falar com as mulheres, chefes que davam advertências apenas por não estabelecerem um contato com as mulheres. Quando eu vim para Bauru em 1972, já casada, a cidade era muito provinciana e a (casa da) Eny funcionava a todo vapor. Me lembro que um dia, eu saí vestida como em São Paulo e reparei que todos olhavam. Eu sou de uma época em que as saias encurtaram e, só depois de algum tempo, pude entender que o pensamento daquelas pessoas deve ter sido: “tem garota nova na Eny”.

JC – Como a senhora começou sua carreira acadêmica?

Terezinha – No início da década de 70, a história foi tirada da grade curricular pelo Ministério da Educação e para trabalhar eu precisava cursar uma licenciatura curta de estudos sociais, que eu fiz na USC. Foi assim que a Universidade me conheceu, no final do ano a USC precisou de uma professora de história do Brasil. Eu ocupei o lugar e sofri uma hostilização por ter preenchido a vaga de uma professora, que depois eu soube, ser muito querida. Cheguei até a ouvir o comentário de que eu era muito “coquete” de um colega. Naquele tempo, a loura, mais do que hoje era discriminada, ela era burra mesmo que não fosse e esse foi um estímulo para me superar. O certo é que eu estou aqui há 35 anos, investindo nos meus conhecimentos.

JC – Como começou o interesse pela história?

Terezinha – Eu sempre entendi história de forma diferente das pessoas da minha época: eles acreditavam que era preciso estudar os fatos passados para entender o presente. Mas história é o que acontece agora, é a vivência humana. É nisso que eu acredito, é a compreensão de que estamos inseridos em um contexto. A minha paixão surgiu nos grupos de jovens, onde eu tive consciência da participação de cada um no processo histórico.

JC - Como é a sua família?

Terezinha – Sou casada com o único advogado que foi secretário dos Negócios Jurídicos de Bauru, referência de bons trabalhos e 18 mil ações para o recebimento de impostos, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Bauru e do social do Noroeste, Flávio Henrique Zanlochi. Tenho quatro filhas, meus quatro presentes de Deus: Cynthia, Vivian, Flávia e Ana Glenda.

JC – A senhora criou dois museus, um em Pederneiras e outro em Arealva, e ainda cuida do núcleo de estudos históricos de Bauru e região. Como é ter feito esse trabalho?

Terezinha – O núcleo foi criado em 1983 por uma iniciativa de Gabriel Ruiz Pelegrina, do professor Muricy Domingues e da irmã Elvira Milani, hoje na reitoria. O núcleo foi criado para se tornar um centro de pesquisa e eu entrei para trabalhar lá dez anos depois. Quanto aos museus, eu vi a necessidade que outras cidades cumprissem a legislação federal que exige o arquivo de preservação histórica das cidades. Fizemos um projeto com os alunos para esses arquivos. Os benefícios foram para as duas direções: para as cidades com a organização dos acervos públicos e para os alunos, com a ajuda financeira e a possibilidade de estágio.

JC – Como a senhora vê a preservação da história de Bauru, hoje?

Terezinha – Posso dizer que Bauru está a meio caminho para se aproximar de um Centro de Documentação e Informação Científica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Cedic – PUC/ SP) ou a um Museu Nacional do Rio de Janeiro. Falta um pouco mais de investimento humano, mas há boas idéias. O primeiro livro sobre a história de Bauru para escolas, “Bauru: nossa história na escola”, é de minha autoria em parceria, foi por causa dele que a bandeira e o brasão da cidade foram revistos.

JC – Em âmbito nacional, o brasileiro realmente tem memória curta? Falta querer compreender mais o presente de maneira contextual?

Terezinha– Acho que sim, mas o Ministério da Cultura tem feito um bom trabalho para o resgate da cultura nacional, até mesmo em nível individual. Eu creio que o Brasil está buscando sua identidade por força da globalização. Hoje, é essa globalização que invade as culturas e gera a defesa dessa identidade. Aqui, por exemplo, a questão do sanduíche Bauru merece louvor, mas é preciso descobrir outros aspectos da cultura que assegure a identidade das cidades e do País.

JC - O que significa Deus para a senhora?

Terezinha – Pode chamar de qualquer nome, Deus é uma energia maravilhosa que te dá forças. É possível encontrá-lo em diversas formas, é a visão humana entre as pessoas, é tratar o outro como pessoa cheia de sonhos, desejos, sentimentos.

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Perfil

Nome: Terezinha Santarosa Zanlochi.

Nascimento: 07/ 11/ 1947

Filme: “Amor Além da Vida”, de Vincent Ward - “é a maior prova de amor que eu já vi, alguém que vai ao inferno por amor ao outro”.

Livro: “Princesa Margarida”, Judith Krantz.

Nota 10: Para quem trabalha com pessoas com necessidades especiais.

Nota Zero: Para as instituições políticas em todos os níveis: legislativo, executivo e judiciário, salvo raríssimas exceções.

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