Esportes

Artigo: O Pan do desrespeito

Por Adriana Giachini | Da APJ, especial para o JC
| Tempo de leitura: 3 min

Oito dias após os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro a pergunta que permanece sem resposta é: valeu a pena? Na edição em que o Brasil registrou recorde de medalhas, foram 54 de ouro, 40 de prata e outras 67 de bronze - totalizando 161 - o País gastou R$ 3,7 bilhões para realizar o evento.

O valor é 800% maior do que o previsto inicialmente e mais de 1000% acima do orçamento pretendido para Guadalajara, no México, sede da competição em 2011 e com verbas de R$ 350 milhões.

Para o Pan do Rio, construiu-se estádios e ginásios cujo destino é incerto - estima-se que os gastos de manutenção do Parque Aquático Maria Lenk chegue a R$ 1 milhão/mês - e mostrou-se que ainda há muito o que melhorar caso o Brasil seja confirmado sede da Copa do Mundo de 2014 ou dos Jogos Olímpicos de 2016.

O primeiro passo, claro, é ser transparente na utilização dos recursos públicos. Exemplo: porque o Brasil aceitou custear as despesas áreas de todas as delegações? Ou como explicar, apesar dos altos valores, as instalações vergonhosas como a tal Cidade do Rock (sede do beisebol e do softbol) que, bastou um vento mais forte, desabou?

A impressão que fica é que, tirado o desempenho louvável dos atletas brasileiros, os Jogos do Rio de Janeiro tornaram-se sinônimo de desrespeito. Primeiro com os próprios atletas já que, não fosse a competição realizada no Brasil, não teriam tido os incentivos financeiros (e morais) recebidos para e durante o Pan.

Com algum investimento, a equipe de atletismo deixou de ter quatro para ter 12 atletas entre os cinco primeiros do ranking Pan-Americano nos últimos dois anos. Já a seleção de levantamento de peso terá como herança as novas barras já que as usadas antes da competição haviam sido compradas em 1971.

E o que falar do salário de Diogo Silva? Como um lutador de nível olímpico como ele sobrevive com R$ 600? O atleta medalha de ouro no Pan comemorou a conquista mais pela oportunidade de poder criticar do que pelo mérito pessoal. É pena.

O Pan foi um desrespeito também com o povo carioca que, passados os dias da competição, voltou a ser refém da violência dos morros. Desrespeito porque as autoridades mostraram que, quando querem, podem resolver o problema.

Faltou respeito da organização do Pan, incumbência do Cômite Organizador do Rio de Janeiro (Co-Rio). Muitos dos ingressos comprados pela internet deram problemas. Houve torcedor que precisou garantir seus direitos na Justiça e outros dois que foram presos acusados, erradamente, de portarem entradas falsificadas. Lamentável.

Pior: como explicar o uso de banheiro químicos? Essas cabines de plásticos e totalmente descartáveis para eventos de grande porte só reforçam o despreparo do Brasil para tais eventos.

Tem mais. Segundo o Jornal O Globo, do Rio de Janeiro, uma média de 88 voluntários deixou de trabalhar no Pan diariamente. Eles reclamavam das condições de trabalho: sem ajuda para ônibus e apenas uma refeição por dia, ainda que alguns cumprissem jornada superior a dez horas. Que desrespeito!

Por fim, até o povo brasileiro deu sua parcela para a competição fosse marcada negativamente. Quem explica o comportamento grosseiro de parte da torcida que vaiou ou ofendeu atletas de outras delegações? Ainda mais quando parte da vaias foi liderada por Oscar Schmidt, ídolo do basquete brasileiro?

As vaias ao presidente Luís Inácio Lula da Silva, na abertura, já davam sinais do que viria pela frente. Não que o torcedor não tivesse o direito de protestar. Mas, ao final do Pan, e após tantas vaias, a sensação comum foi de que: mais importante era fazer barulho, menos resolver problemas.

O sentimento pós-Pan é que ainda há muito o que se fazer para melhorar o esporte brasileiro. Mais ainda se o País realmente mantiver o sonho de um Mundial de futebol ou de uma edição olímpica. Pode-se começar com uma “aula” de boas maneiras. Para todos, sem exceções.

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