Bairros

Consertos garantem sustento de profissionais

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Quando tinha por volta de 8 anos de idade, Alexandra Petelinkar passava tardes inteiras admirando o trabalho da costureira que prestava serviços a sua mãe. Naquela época, quando ela ainda morava na Vila Seabra (região oeste de Bauru), quase não existiam lojas de roupas feitas na cidade.

Máquinas de costura, ao contrário, eram presenças comuns nas casas das pessoas e as profissionais do ramo da confecção tinham o costume de atender à clientela em domicílio. “Eu me lembro que ela (a costureira) demorava cerca de dois dias para fazer um vestido. Nesse meio tempo, eu ficava lá, observando o modo como ela trabalhava. Era muito bom. De vez em quando, ela até fazia roupas para minhas bonecas”, conta Alexandra, que hoje tem 36 anos de idade e é formada em administração de empresas pela Instituição Toledo de Ensino (ITE).

Se no passado as roupas fabricadas por costureiras e alfaiates reinavam absolutas na cidade, agora a situação é bem diferente. As lojas de roupas se proliferaram por toda parte - atualmente, elas podem ser encontradas até nos recantos mais afastados da periferia - e as costureiras já não podem mais se dar ao luxo de demorar dois dias inteiros para confeccionar uma obra de arte.

Serviços mais rápidos e simples de serem executados, como reparos e ajustes, se converteram na principal fonte de sustento das profissionais do ramo. No começo, Alexandra bem que tentou ir contra a tendência, mas logo percebeu que a mudança de rumo seria inevitável.

Cerca de 11 anos atrás, quando entrou para o ramo da confecção, ela até que procurou investir na fabricação de roupas. Inclusive, Alexandra chegou a montar uma loja na avenida Getúlio Vargas (zona sul de Bauru), para comercializar as peças que produzia.

Logo, porém, ela percebeu que se desse prioridade aos ajustes e reparos, o negócio se tornaria mais rentável. “Eu via que a maioria das pessoas procurava a oficina para realizar consertos. Encomendas de roupas eram mais difíceis de aparecer”, conta Alexandra, que é mais conhecida como Lê.

A irmãs Vera Lúcia e Fátima Passeto também não demoraram a perceber as transformações ocorridas no mundo das confecções. Sócias numa oficina de costura localizada na avenida Duque de Caxias, as duas também resolveram investir nos serviços de ajustes e reparos, para poderem levar o negócio adiante.

Embora não tenham lucros astronômicos, as duas nunca ficam sem serviço. Na última terça-feira, véspera de feriado, Fátima mal tinha condições de atender à reportagem, tamanha a quantidade de clientes que entrava e saía a toda hora do estabelecimento.

“Para fabricar roupas, é preciso mobilizar um capital de que, às vezes, você não dispõe. As chances de você ter prejuízos são muito grandes”, reflete ela, enquanto “desfrutava” de um raro momento de descanso no meio do expediente.

Reparos de roupas, ao contrário, vêm se mostrando fontes certas de lucro para as irmãs. “Consertar compensa. Imagine que você compre uma calça por R$ 100,00, e uma semana depois ela apresente um pequeno defeito. Você a jogaria fora? Não, é claro, pois com R$12,00, no máximo, seria possível deixá-la nova em folha”, garante Fátima, que chega ao serviço às 7h e só vai embora depois das 19h.

Ultimamente, clientes que ganham ou perdem peso em demasia são os que mais têm ajudado a “engordar” a renda de oficinas de costuras como as de Alexandra e das irmãs Passeto, especializadas em consertos. “Já chegamos a ajustar, de uma só vez, mais 30 peças para uma cliente que havia emagrecido. Aqui a gente sempre dá um jeito para tudo: alarga, solta, encurta, alonga... Todo mundo vai embora satisfeito”, afirma Fátima.

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Faz tudo

Apesar de haverem se especializado nos serviços de reparos e ajustes, na prática as pequenas oficinas de costura não costumam se dar ao luxo de deixar de atender às necessidades dos clientes que as procuram. “Se uma pessoa vier aqui para encomendar uma roupa, farei com o maior prazer”, garante Alexandra Petelinkar, que está há 11 anos no ramo da confecção.

Desde que começou a trabalhar com costura, ela já teve a oportunidade de atender a todo tipo de pedido em sua oficina, atualmente instalada no Altos da Cidade. Rosmari Jurado Parra, 50 anos, que trabalha como modelista no estabelecimento, recorda-se de haver feito desde roupas para cachorros até capas para máquinas de lavar roupas. Às vezes, ela e as outras quatro funcionárias da oficina costumam se deparar com encomendas um tanto inusitadas. Meses atrás, Rosmari e as colegas tiveram de fabricar um cobertor para uma égua de raça.

Em outra ocasião, as funcionárias de Alexandra fizeram a proeza de confeccionar uma capa para um planador. Não que elas tenham encontrado grande dificuldade na empreitada. “O rapaz trouxe todas as medidas do avião para nós, e tivemos apenas do trabalho de segui-las com exatidão”, diz Rosmari, que já trabalhou, no passado, como secretária em escritórios de contabilidade e de advocacia na Capital. Ela está no ramo da costura desde 1987.

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