A facilidade que uma pessoa tem para montar uma oficina de costura é o fator que ajudaria a explicar a grande quantidade de trabalhadores, em Bauru, que obtêm sustento do ramo da confecção.
“Para atuar na área, basicamente, basta pegar duas máquinas de costura, instalá-las em um barracão, e pronto, a fábrica estará montada”, avalia Nelson Luiz de Vides, advogado do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Vestuário de Bauru e Região.
Se, no passado, costureiras e alfaiates demoravam até oito anos para se tornarem plenamente capacitados a fabricar uma roupa, hoje, em decorrência das inovações tecnológicas introduzidas no mercado, qualquer pessoa fica apta a atuar na indústria da confecção em menos de uma semana.
Esse fator, na opinião do advogado, também tem ajudado a fazer com que a profissão se prolifere na cidade, sobretudo entre as camadas mais pobres da população. “Costura é um trabalho de pouca complexidade técnica e que pode ser aprendido na prática. Por isso tantas pessoas buscam essa atividade como meio de vida”, pensa ele. A entidade estima que, atualmente, 800 trabalhadores no município sobrevivam atuando no ramo da confecção. Por outro lado, o sindicato não sabe informar se todas essas pessoas possuem registro profissional em carteira. “Esse dado é difícil de ser aferido, principalmente porque existem muitas ‘empresas de fundo de quintal’ na cidade”, explica o advogado.
Embora não possua dados precisos sobre a questão, a entidade acredita que a maioria da mão-de-obra do setor se encontre, hoje, na informalidade. “Sempre que possível, tentamos fiscalizar as empresas, para garantir que a lei seja respeitada, mas essa vigilância nem sempre é fácil de ser realizada”, reconhece de Vides.
____________________
Dólares
Depois que passou a trabalhar com moda e artesanato, a vida da bauruense Tereza Inês da Silva, 47 anos, mudou de maneira radical. Após freqüentar os cursos de geração de renda da Casa da Esperança, entidade socioassistencial localizada no Núcleo Fortunato Rocha Lima, ela passou a contar com um salário fixo que lhe permite sustentar a família.
Não bastasse o fato de ficar menos sujeita às privações no dia-a-dia, Tereza ainda teve a chance de travar contato com realidades que ela nem supunha existir. Na feira de artesanato Ubá, a moradora do Parque Santa Edwirges chegou a ver os materiais que produz serem elogiados até por clientes de outras nacionalidades.
Certo dia, ela e as filhas trabalhavam na feira, como de costume, quando foram surpreendidas por uma jovem que falava um idioma desconhecido. “Não compreendi nada do que ela dizia. Para você ter uma idéia, a mãe dela é que tinha de traduzir aquele palavreado, senão a gente não teria conseguido fechar negócio”, conta Tereza.
Depois de combinado os termos da venda, as negociantes ainda tiveram uma pequeno problema na hora do pagamento. “Ela queria que gente recebesse em dólares, só que eu não quis aceitar. Nunca tinha visto aquilo na minha vida, como iria saber se eram ou não verdadeiros?”, recorda a artesã. A peça comprada pela moça (uma italiana que possui familiares em Bauru) era uma almofada de retalhos, cujo valor em moeda nacional é R$ 150,00.