A unidade de Semiliberdade de Bauru foi inaugurada ontem, no Jardim Cruzeiro do Sul, no prédio da antiga Gilgal. Na entidade, vão cumprir medida socioeducativa adolescentes infratores. Apesar de ter capacidade para 25 jovens, a casa, que conta até com piscina e churrasqueira, ainda não abriga nenhum adolescente. A inauguração da 23.ª unidade de semiliberdade do Estado teve a presença de Berenice Gianella, presidente da Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Casa), antiga Febem, e autoridades locais.
Das medidas socioeducativas aplicadas a adolescentes infratores - advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, inserção em regime de semiliberdade e internação em estabelecimento educacional-, Bauru só não possuía a semi. Com a nova unidade, o Poder Judiciário poderá aplicar a medida socioeducativa. A unidade será gerida em sistema de parceria entre a Fundação Casa, responsável pela segurança dos adolescentes e a Organização Não-Governamental (ONG) Creche Berçário São José.
Gianella ressalta a iniciativa do governo do Estado em investir na semiliberdade. “Ano passado nós inauguramos cinco unidades. A de Bauru foi a primeira do ano. Amanhã (hoje) vamos inaugurar uma em Diadema, em breve a de Sorocaba. Ainda este ano as unidade de Ribeirão Preto e Araraquara serão inauguradas”, adianta a presidente.
Atualmente, o Estado conta com cerca de 290 adolescentes cumprindo a medida socioeducativa de semiliberdade. Ela é destinada a jovens que cometem infração de pequeno potencial e não têm perfil para permanecer internados. Também pode ser aplicada para adolescentes que estão deixando a internação, mas ainda não estão preparados para a liberdade. Na semi, os adolescentes dormem na unidade e, durante o dia, vão à escola normalmente e realizam cursos profissionalizantes, além de atividades desportivas e culturais. Eles podem obter autorização para passar o final de semana com suas famílias, desde que apresentem bom comportamento.
Para Gianella, a parceria firmada com a entidade será fundamental para a ressocialização dos adolescentes. “É muito importante, porque a ONG terá mais facilidade para firmar parcerias com outras entidades dentro do município para garantir a educação e a profissionalização desses jovens”, avalia.
Oportunidade
Durante a inauguração, o juiz Ubirajara Maintinguer, da Vara da Infância e Juventude, ressaltou a importância da semiliberdade. “Em Bauru não tínhamos essa medida socioeducativa e ao longo dos anos isso gerou uma distorção. O cumprimento de liberdade assistida ficou inchado e a unidade de internação, superlotada”, observa.
“Por isso, a semiliberdade é uma porta que se abre e está à disposição dos jovens que querem realmente se reabilitar”, acrescenta o juiz. Egli Muniz, titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), colocou a rede de proteção social do município, coordenada pela secretaria, à disposição da unidade. “Para auxiliar a reintegração desses adolescentes”, diz.
Para o presidente da ONG, Alcides Augusto Mendonça Júnior, o início dos trabalhos da unidade será de aprendizado. “Para nós, tudo é novo. Foi uma trajetória difícil, mas conseguimos a unidade”, conta. A expectativa é que os adolescentes comecem a chegar em alguns dias. De acordo com Mendonça Júnior, a situação de cada um será analisada e, só depois, ele será encaminhado às atividades. “Para isso, já procuramos algumas entidades e empresas para firmar parcerias”, conta. A gerente da unidade, Paula Juliana Basílio, também destaca o desafio da nova iniciativa. “Será uma experiência nova, desafiadora. Estou cheia de vontade de começar o atendimento”, conta.
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Vizinhança
A inauguração de uma unidade para abrigar adolescentes transgressores inicialmente não repercutiu muito bem entre moradores do Jardim Cruzeiro do Sul vizinhos da entidade. Porém, após tirarem suas dúvidas, alguns moradores próximos à entidade reconsideraram. “Quando anunciaram, ficamos um pouco preocupados. Mas, fomos até lá e nos explicaram como funcionaria o local”, revela Amarildo de Oliveira, 44 nas, que há 10 anos mora no mesmo quarteirão onde está localizada a unidade.
Para ele, o mais importante é a recuperação dos adolescentes. “Temos de dar uma oportunidade para esses jovens”, diz.
Cleusa Gonçalves de Oliveira, 44 anos há 16 anos morando na mesma rua da unidade, pensa da mesma forma. “Eu não tenho medo, não. São seres humanos como eu e se existisse mais lugares como esse para acolhê-los, a marginalidade diminuiria muito”, conta.