No pátio da Estação Central da extinta Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), uma composição se destacava dos outros vagões desativados e parados na linha. Com a aparência da data de fabricação, uma Maria-Fumaça, de 1919, tracionava três carros de madeira.
Com o apito do trem, as pessoas foram ocupando seus lugares, de preferência no carro de passageiros de 1.ª classe, de 1949, totalmente restaurado e inaugurado no passeio da manhã de ontem, pelo projeto “Ferrovia para Todos”, da Secretaria Municipal de Cultura (SMC).
Todo o trabalho de adaptação do que era um carro administrativo para o de passageiro foi realizado em cerca de três meses num dos barracões cedidos pela América Latina Logística (ALL), concessionária da malha ferroviária em Bauru. Os maquinários pesados foram emprestados da marcenaria de Luiz Carlos Santos, o Luiz Preto.
Ontem, Luiz Preto, que trabalhou cerca de 25 anos no reparo de vagões, olhava orgulhoso para o carro que ajudou a reconstruir. “Você vê que sua arte tem repercussão. Recuperar um trem é coisa de artista”, colocou o marceneiro.
Sem o vigor do final da década de 1910 quando foi fabricada, a locomotiva 278 de cor verde e detalhes em vermelho seguia lenta, nem tanto por falta de potência, mas pela necessidade de acompanhar os desníveis da linha. O balanço era sentido no carro de passageiros S-22, de 1943; no carro de passageiros de 1.ª classe e no carro dormitório O-1, de 1932. Todos puxados pela máquina, numa velocidade aproximada de 5 quilômetros por hora.
Pelas janelas dos vagões, avistavam-se casas de madeira desgastadas da antiga colônia da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que parecem ter seguido o declínio da ferrovia. Das portas, crianças acenavam aos passageiros eventuais.
José Roberto de Oliveira Mattos, que trabalhou 17 anos como maquinista da Rede Ferroviária S/A, sentia com alegria e certa mágoa o passar do tempo. “Estar aqui andando de trem em parte é uma alegria e em outra é uma tristeza por ver o abandono. Olha só esse balanço! Antes não era assim; a linha era um tapete, agora parece cheia de buracos”, disse o senhor de 56 anos.
Do outro lado da janela, os vestígios de um passado imponente das oficinas da NOB emocionavam Luiz Carlos de Andrade, 50 anos. “Fico triste em ver a estação e as oficinas assim, abandonadas. Vivi um tempo na Itália e lá não é assim, lá a ferrovia recebe incentivos”, analisou.
Nas férias do homem que viveu 20 anos para a ferrovia, seja como marceneiro, fundidor, modelador ou truqueiro, Andrade costumava viajar de trem até a fronteira do Brasil com o Paraguai para fazer compras. “Viajei de trem por boa parte do Brasil”, colocou.
Heróis do trem
Vestidos com camisetas e calças azul-marinho e quebes sobre a cabeça, os principais protagonistas desta nova conquista conduziam o trem, sentindo o calor da madeira queimando na fornalha da máquina à vapor. Para que tudo desse certo na manhã de ontem, eles abandonaram o serviço às 23h30 da segunda-feira e retomaram as atividades às 3h de ontem, para dar pressão à locomotiva.
O esforço de seis anos dedicados ao trem foi explicado pelo diretor de pesquisa e documentação da SMC, Alex Gimenez Sanches. “O trem faz parte da nossa vida!”, colocou. E para quem viu a composição funcionando ontem, dificilmente imagina a dificuldade para executar o trabalho. “Muitas peças não existem mais. Temos que pesquisar e sair correndo atrás de materiais parecidos”, complementou Geraldo Aparecido Pereira Pires, o Gera.
Modestos, Sanches e Pires, mais os servidores municipais José de Jesus Dias, Luiz Carlos Pereira e o voluntário Benedito Lourenço de Moura, ficaram constrangidos com a homenagem que receberam ontem. Uma placa foi fixada no vagão de passageiros de 1.ª classe com os seus nomes e os dizeres: “os servidores que trabalharam incessantemente, transformando este sonho em realidade”.
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Mais passeios
Como o lançamento de ontem foi restrito a parceiros do projeto e ferroviários aposentados, um outro passeio direcionado a escolas e entidades já previamente agendadas pela SMC foi marcado para sexta-feira. No sábado, a atividade será aberta ao público, com saídas previstas às 9h, às 10h, às 11h e às 12h.
As escolas e entidades interessadas em agendar a participação na sexta-feira devem procurar a SMC com requerimento com o número de pessoas e idade das mesmas. O público em geral deverá retirar os convites a partir das 8h30 deste sábado. Os organizadores avisam que o atendimento é por ordem de chegada. Mais informações: (14) 3235-1072.
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A caminho do MIS bauruense
O passeio puxado pela Maria-Fumaça é curto. Em cerca de 15 minutos, a composição percorre cerca de um quilômetro e chega ao destino, na Estação Bauru-Paulista, também desativada. Lá, todos são convidados para conhecer as futuras instalações do Museu da Imagem e do Som (MIS) e do Museu Histórico Municipal.
Há três meses ocupando um prédio provisório, funcionários da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) trabalham na catalogação de algumas relíquias cinematográficas, como um projetor de 16 milímetros da década de 30.
Para a reforma de todo o prédio, que ocupa um espaço de cerca de 2 mil metros quadrados, o responsável pelo MIS, Orlando Alves, estima que seja preciso mais de R$ 1 milhão. “É muito dinheiro, mas, em compensação vai revitalizar uma área importante de Bauru”, afirma Alves.
A idéia é que a verba seja conseguida junto aos ministérios da Cultura e do Turismo por meio do envio de projetos da Sociedade Amigos do Museu (AMB), que existe há seis anos, em conjunto com o Poder Público Municipal.
“Éramos uma ONG (Organização Não-Governamental) e estamos nos transformando numa Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). Com isso, temos poder para captar e gerir verbas direcionadas”, coloca o engenheiro e diretor executivo da AMB, Ricardo Bagnato.
Caso os projetos sejam aprovados, Bagnato acredita que em dois anos seja possível a finalização das obras que vão abrigar os novos museus municipais. “De norte a sul do Brasil, o patrimônio ferroviário está degradado. A realidade do Museu Ferroviário de Bauru já é uma grande conquista e vamos conseguir mais”, torce o diretor.