Cultura

Crônica: Só lamentar não adianta !

Ercília Pollice*
| Tempo de leitura: 3 min

“Se tão somente numa terra de paz estás confiado, que farás na enchente do Jordão?” - Jeremias: 12.5b

Mais de uma vez, usei esse texto em minhas crônicas e vejo que, cada vez mais, ele é oportuno e esclarecedor. Cada vez que uma catástrofe acontece ou em nossa vida particular, ou na vida de outras pessoas, ou na coletividade, percebemos quão frágeis somos, e quão frágil é nossa tênue vida.

Fico então sempre conjeturando o que seria de mim, particularmente, se não acreditasse num Deus que cuida de mim, me ama, me acolhe, sara minhas feridas e ainda consegue dar alegria à minha alma, mesmo durante as tempestades que, vira e mexe, nos surpreendem a vida.

Estamos vivendo num mundo sem fronteiras, literalmente falando. Sem fronteiras nas coisas boas e nas tolices que os homens, em nome de Deus, ou em nome do deus dinheiro e do imediatismo, cometem - sem se importar com o amanhã.

Vivemos num país também sem fronteiras, sem limites; de desmandos, conchavos, mentiras, irresponsabilidades, incompetência, para citar apenas alguns adjetivos. Um país lindo, abençoado por Deus, sem me importar de cair num lugar comum, mas onde não temos segurança na saúde e no nosso direito de ir e vir, seriedade na educação e, ainda por cima, desconfiança de tudo e de todos.

Representantes do povo, autoridades constituídas que deveriam merecer nosso respeito, são pegos dizendo idiotices desrespeitosas, palavreado vulgar e gestos obscenos que não caem bem nem em atitudes de moleques.

O que acontece conosco, que nada mais nos afronta? Nada mais parece nos incomodar? Nada mais nos faz reagir? Realmente estamos descuidados de tudo e de todos, como afirmou em um de seus lindos livros Leonardo Boff.

Um país que se diz cristão e age como terra de bárbaros... Não dá para aceitar, não dá para entender .Não dá mais pra fingir que não é conosco.

Por isso a partir de hoje entrei na corrente do “Cansei”. Cansei de tudo, cansei dos caras-de-pau que brincam com situações sérias e fazem piadas da dor alheia, cansei das robalheiras, cansei daqueles que deveriam saber tudo e nunca sabem nada, dos espertinhos, dos mentirosos, dos incultos, dos incompetentes, dos espertalhões, dos alienados e por aí vai...

Não vou mais me calar. Sou instruída, privilegiada com uma cabeça boa, trabalhei toda minha vida formando jovens para uma vida íntegra, vivida com plenitude, confiança e ética. Sei que fiz direito meu dever de casa em família e em sociedade. As pessoas de minha geração assim procederam. Isso é um fato. Posso afirmar sem medo de errar.

Então me pergunto, vezes sem conta: onde está o erro? Quando foi que tudo isso começou?

E a resposta teima em martelar em minha cabeça: “Quando resolvemos que ser moderno ou pós-moderno era aceitar tudo o que nos induziam a crer, a achar normal todas as anormalidades, a ser coniventes, a ser displicentes, a lavar as mãos, como se uma decisão individual nossa em dizer não nos tornasse párias da modernidade. Retrógrados!

Volto então ao versículo bíblico citado no início, e afirmo: já há algum tempo, não estamos confiados numa terra de paz, já estamos enfrentando o início da enchente do Jordão.

Fica a pergunta: até quando as comportas agüentarão? Sim, porque todos aprendemos: a uma ação, vem sempre uma reação!

*Ercília Ferraz de Arruda Pollice - Escritora , poeta e colaboradora de Ju Machado - Escritório de Arte

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