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Pequena abertura


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Uma pequena abertura, parece que um certo arejamento nas mentes, aconteceu nestas duas últimas semanas com o retorno à mídia de reportagens e comentários sobre o estado lamentável de nossa infra-estrutura de transportes terrestres. Após um longo período de esquecimento, o tema reaparece com força e para variar com algumas comparações impressionistas que não ajudam a “clarear o mapa”, para usar o jargão dos planejadores de antigamente. Dizer que a malha rodoviária pavimentada do Brasil (170 mil km) é proporcionalmente inferior à do Timor Leste não esclarece nada: em termos físicos, a área asfaltada do bairro de Santa Cecília, na Capital paulista, é um pouco maior.

De qualquer modo, antes tarde do que nunca as atenções se voltam para os problemas da infra-estrutura física, que interessam ao desenvolvimento do País. Joelmir Betting, sem dúvida uma das melhores cabeças pensantes do jornalismo brasileiro, disse num recente debate que o noticiário econômico foi monopolizado pelos temas de interesse dos mercados financeiros nesses últimos 12 anos. Não sobrou espaço para mostrar o que estava acontecendo na economia real. O asfalto esfarelando, as ferrovias se acabando, o custo do transporte aumentando, reduzindo a circulação de bens, eliminando empregos, tirando renda do agropecuarista e da indústria, encarecendo os serviços... Nada disso tem muita importância: o que conta é “a reunião do Copom na semana que vem...”

O fato é que, nos últimos 25 anos do século passado, os governos gastaram as estradas construídas nos 30 anos anteriores. Tirando o Estado de São Paulo, onde a privatização funcionou e os governos investiram no setor, a malha rodoviária asfaltada no restante do Brasil foi abandonada, sem manutenção. Os investimentos públicos sumiram e as estradas de terra têm mais buraco que propriamente piso. Só funcionou mais ou menos onde houve alguma privatização.

Se olharmos para a infra-estrutura ferroviária, vemos que a privatização deu um novo impulso ao setor: primeiro ele parou de piorar, escapou da destruição e hoje as empresas estão investindo, aumentando a capacidade de transporte e recebendo estímulos do governo para a recuperação dos leitos das ferrovias. O planejamento do setor prevê dobrar a extensão dos trilhos em cinco ou seis anos e não importa muito se vão atingir a meta no período, o que importa é que estão no campo, construindo. É preciso dar destaque ao processo de competição que se iniciou para disputar novos trechos de ferrovias no Nordeste, no Sul e em São Paulo (o ferro-anel e a ferrovia de alta velocidade na ligação com o Rio) que demonstram uma nova vitalidade empresarial.

A economia melhorou no primeiro semestre. Suspeito que estamos próximos de um crescimento anual de 5% do PIB, cuja sustentação não pode ser interrompida pelas carências de estrutura. A energia em primeiro lugar: a imprensa acordou, atenta à lição do apagão de 2001, o governo se mexeu mas ainda assusta o bate-cabeça nos órgãos de planejamento. Os transportes vêm em seguida, especialmente o rodoviário, onde tardam as decisões de privatizar as estradas enquanto os departamentos do governo se enredam numa discussão tosca sobre os custos do pedágio. É preciso mais cobrança da mídia para saber por que não foram feitas as licitações das seis rodovias que estavam previstas há quase dois anos.

O autor, Delfim Netto, é professor Emérito da FEA/USP; ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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