Minha história como um barnabé estadual foi pinçada das brumas do passado ao ler duas cartas publicadas num mesmo dia no JC de 22 de julho de 2007. O senhor Jorge Miguel Duarte, na carta “A viúva-negra”, nos fala sobre seus atuais 20 anos de serviço público estadual. Ele expressa seu profundo desapontamento com seus superiores hierárquicos, diante de uma dedicação de corpo e alma.
Ele descreve sutilmente a aranha viúva-negra que no casamento atrai o macho e, após consumada a cópula, simplesmente mata-o de maneira impiedosa. O missivista faz uma clara alusão às injustiças recebidas de seus chefes (mediatos e imediatos).
Durante três décadas fui funcionário público estadual. Exerci cargos na diretoria e em unidade sanitária da Divisão Regional de Saúde de Bauru. Também exerci o cargo em unidades escolares e na diretoria da Divisão Regional de Ensino de Bauru. Fui implacavelmente morto pela aranha viúva-negra, após um ritual de capciosa sedução.
O senhor Eloy Ferreira Gomes, na carta: “Preconceito e inveja”, nos fala sobre pessoas que ocupam cargos de mando e o fazem apenas para encontrar os defeitos do outro, para assim diminuir o outro. Essas pessoas não conseguem apontar o dedo para as virtudes do outro. Nunca reconhecem no outro a capacidade para o trabalho.
Fui, sim, vitimizado friamente por tal tipo de pessoas em cargos de mando. Como bem diz o senhor Eloy: tais pessoas são como o capim, em qualquer parte se encontra um monte. Pouquíssimos chefes hierárquicos (mediatos e imediatos) que tive foram o avesso das pessoas mencionadas pelo senhor Jorge e pelo senhor Eloy.
Entre esses raros chefes hierárquicos, merece destaque especial, com honra ao mérito, o senhor Paulo Guimarães, então diretor administrativo da Divisão Regional de Saúde de Bauru, no hiato temporal compreendido entre 1969 e 1981. Este macróbio da espécie humana já apagou 95 velinhas em seu bolo de aniversário. Ele se encontra no tempo de colheita dos bons frutos plantados durante uma existência plena de atos humanos perfeitos.
Protótipo do autêntico chefe democrático, suas atitudes sempre foram norteadas para um elevado espírito de mansidão, justiça e simplicidade. Nunca foi picado pelos insetos do cabotinismo ou do despotismo. O que, infelizmente, muitos ocupantes de cargos de mando sentem irrefreável e incomensurável prazer em destilar em cima de seus subordinados.
Ele ocupava, como diretor administrativo, o epicentro de um terremoto de paixões e vaidades humanas onde se digladiavam interesses essencialmente egoístas, mas ele sempre tinha a palavra certa para a hora certa, amainando os ânimos por vezes inflamados. Somando sempre, dividindo nunca. Atuando como agente amenizador de conflitos humanos.
Contrapostos à verbosidade dos tartufos, assumindo magistralmente atos salomônicos e discretos, próprios dos grandes homens. Como diz o senhor Jorge: homens com “H” maiúsculo, porque homúnculos existem aos montes. As atitudes do senhor Paulo Guimarães sempre foram de uma lídima pomba da paz. Nos 30 anos de vivência no funcionalismo público estadual, posso categoricamente afirmar que encontrei em cargos de mando muito mais aranhas viúvas-negras do que pombas