Durante o dia, eles apanham papéis, perambulam pelas ruas ou pedem esmolas para sobrevivear. À noite, buscam refúgio contra o sereno nas marquises, nos bancos das praças ou sob os galhos das árvores. São homens, com idade entre 18 e 45 anos, a maioria vinda de outros municípios, que abandonaram o lar em decorrência de conflitos com família.
Basicamente, essas pessoas preferiram sair de casa antes de se tornar uma espécie de estorvo para esposa, filhos e irmãos e não querem saber de voltar para dentro do “barco” sem primeiro reorganizar a própria vida.
Esse é o perfil básico do morador de rua, segundo estudo realizado há cerca de dois anos pela Secretaria Municipal de Bem-Estar Social (Sebes). O levantamento apontou que a maioria das pessoas que hoje se encontra nessa situação de aparente abandono tem família, profissão e um nível razoável de escolaridade.
Dos 52 moradores de rua identificados na ocasião, por exemplo, 40,38% possuíam nível fundamental incompleto e outros 9,62% chegaram a cursar o ensino médio. Analfabetos e semi-alfabetizados somam apenas 9,6% desse total.
Na última semana, a equipe do JC nos Bairros percorreu a região central da cidade em busca dos moradores de rua. Nessas andanças, a reportagem se deparou com histórias de ruptura familiar ocasionadas pelas drogas, pelo álcool, pelo desemprego e pela criminalidade.
Até os 17 anos de idade, José Antônio Fim, por exemplo, nunca havia sequer imaginado em viver na rua. “Eu era auxiliar de pedreiro e morava com a minha mãe. Mas daí veio o homicídio e acabou com tudo...”, conta ele, que atualmente tem 39 anos e sobrevive da coleta de materiais recicláveis.
Fim, que passou grande parte da infância e da adolescência em Echaporã (140 quilômetros de Bauru), assassinou um homem que havia jurado seu irmão de morte. “Nunca fui bandido - conheço o certo e o errado, mas não poderia permitir que fizessem mal a alguém que tem o mesmo sangue que o meu”, justifica-se.
Ele deixou a prisão há pouco mais de três meses e, desde então, tem se abrigado sob a marquise da antiga Estação Ferroviária, no Centro. “Meu irmão (aquele mesmo que havia sido ‘salvo’ pelo ato criminoso de Fim) até insistiu para que eu fosse morar com ele, mas achei melhor não. Ele já tem muito com o que se preocupar. Eu só iria atrapalhar”, acredita o catador de papéis.
Entre os casos encontrados pela reportagem, alguns meio absurdos, como o do mestre-de-obras Lázaro Firmino, 48 anos, que abandonou a esposa por achá-la “fria” demais na cama. “Deixei tudo para ela - carro, terreno, apartamento - e caí no mundo”, afirma, ele, que atualmente vai de cidade em cidade à procura de trabalho na colheita do café e da laranja.
Caminho sem volta
Na época em que o estudo da Sebes foi feito, a maior parte dos moradores de rua abordados admitiu não ter a intenção de retornar ao local de origem. À primeira vista, essa informação parece contrastar com outro dado apontado pelo levantamento, segundo o qual 40,38% reconheceram ainda manter algum tipo de contato com a família.
“Volta e meia encontro com minha irmã, enquanto estou trabalhando. De vez em quando, ela vem até aqui me visitar, mas não ‘rola’ mais da gente morar junto. Ela tem a família dela para cuidar”, garante o catador de materiais recicláveis Sebastião Aparecido Maia, 42 anos, que também mora sob a marquise da velha estação.
Outras pessoas ouvidas pela reportagem também afirmaram que não gostariam de se tornar um incômodo para a família. É como a se a vida nas ruas fosse uma experiência sem volta para elas.
Mesmo as autoridades do município responsáveis por oferecer os cuidados necessários a essa camada da população reconhecem que reintegrar os moradores de rua ao ambiente familiar é uma tarefa, no mínimo, improvável.
“Só não digo que seja impossível porque acredito que todo ser humano tem condições de se recuperar, mas precisamos reconhecer que esse trabalho é bastante complicado de ser feito, até porque grande parte das pessoas que vivem nas ruas sofre de problemas psíquicos ou tem histórico de dependência química”, pondera a secretária municipal do Bem-Estar Social, Egli Muniz.
____________________ Bem-vindo à Estação
Edson Ferreira de Oliveira, 29 anos, talvez seja o mais novo morador de rua de Bauru. Ninguém sabe ao certo de onde ele veio, mas o fato é que, atualmente, ele está vivendo sob a marquise da velha Estação Ferroviária, no Centro.
“Ele apareceu aqui hoje (na última terça-feira), do nada”, garante Sebastião Aparecido Maia, 42 anos, que vive no local desde a metade do ano passado. “A gente vai ter de cuidar dele”, pondera José Antônio Fim, 39 anos, que está no lugar há pouco mais de três meses.
Nome completo e data de nascimento são as únicas informações que Oliveira consegue transmitir com alguma segurança. Ele diz que carrega consigo um caderno com letras que compôs para artistas famosos, como Daniel e Zezé de Camargo.
Na verdade, a brochura é a apostila de um curso técnico de prótese dentária que ele achou pelas ruas. Oliveira mal sabe escrever e aparenta possuir sérios problemas psicológicos. Bebe sem parar e solta frases desconexas a todo instante. Maia e Fim, seus colegas de marquise, não sabem se ele terá condições de ganhar a vida por conta própria.
“Se ele der uma melhorada na cabeça, a gente pode até tentar arrumar um carrinho para ele apanhar recicláveis com a gente”, diz Fim. Oliveira parece não concordar com a idéia. “Eu já tenho emprego e estou ganhando muito bem. Já falei para esses dois que eles têm de trabalhar comigo. Vamos ficar ricos”, argumenta.
Oliveira pensa que é produtor de eventos. Diz que já organizou shows para a dupla Bruno e Marrone e para o cantor Leonardo. Antes disso, ele teria trabalhado como pedreiro, mas não sabe especificar o local e a data em que isso ocorreu.