São mais de 100 anos de história. Mas o avanço da tecnologia, especialmente a popularização do telefone celular, está transformando o relógio de pulso em mera peça de decoração. Antes indispensável, ele agora passa mais tempo no fundo de uma gaveta do que no braço de uma pessoa.
Nos últimos dois anos, a venda de relógios caiu cerca de 30%, segundo Marluce Araújo Cavaca, gerente de uma relojoaria no Calçadão da Batista de Carvalho. Segundo ela, a disseminação do uso do celular tem contribuído decisivamente para essa queda. “Hoje, todo mundo tem celular e não precisa mais do relógio de pulso para saber a hora”, observa.
Para vencer a concorrência do celular, a indústria tem investido em modelos diferenciados. O relógio de pulso está deixando de ser um simples relógio para se tornar uma jóia, uma atração à parte. Segundo Marluce, a mais nova coleção traz modelos com pedrarias, que mais parecem uma pulseira. Além disso, os relógios estão ficando mais coloridos. “É para combinar com a roupa”, explica a gerente.
Segundo ela, a inovação foi bem aceita por pessoas de todas as idades. “A impressão que se tem é que apenas os jovens gostam dos modelos mais ousados, mas não é bem assim”, diz.
A diversificação do produto foi uma forma que os fabricantes de relógios encontraram para continuar despertando o interesse dos consumidores. O preço, segundo Marluce, não sofreu alteração, continua o mesmo de anos atrás.
A secretária Marisa Cardoso, 28 anos, é um exemplo de quem deixou o relógio tradicional de lado para se guiar pelo telefone celular. Ela conta que o relógio de pulso quebrou há mais de um ano e desde então tem recorrido apenas ao celular. O telefone virou até mesmo seu despertador. Marisa dorme com o celular debaixo do travesseiro, programado para despertar de manhã. Com isso, não precisa mais ficar ouvindo o constante “tic-tac” a noite toda no “pé do ouvido”.
Mais prático
Embora tenha ficado tanto tempo se orientando pelo relógio do telefone celular, Marisa ficou muito contente ao saber que ganharia um relógio de pulso novo do marido. Segundo ela, ver a hora em um relógio no pulso é muito mais prático do que ficar abrindo a bolsa para ver a hora no celular. “Estava fazendo falta”, diz Marisa ao receber o novo relógio de pulso - seu primeiro presente de Dia das Mães.
Quanto ao despertador, o celular deve mesmo assumir esse papel. Segundo Marisa, ela não quer nem saber de “tic-tac” na cabeceira da cama.
Devido a essa troca do relógio de pulso pelo celular, a profissão de relojoeiro tende a desaparecer com o tempo, na opinião de Odair Gonçalves, 54 anos, dono de uma relojoaria na rua Primeiro de Agosto. De acordo com ele, a loja chegou a ficar com 300 relógios “encalhados” dentro da oficina.
Ele conta que os donos levam os relógios para consertar e, dependendo do valor do conserto, muitos nem voltam para buscar o relógio. “Às vezes, o que a pessoa vai gastar no conserto dá para ela comprar um relógio novo nas barracas de camelô”, diz Odair. O preço de um relógio nessas barracas varia de R$ 15,00 a R$ 20,00.
Segundo o relojoeiro, são poucas as pessoas que mandam os relógios para o conserto e voltam para buscar. Normalmente, isso acontece com quem tem relógios um pouco mais caros, cujo valor de mercado supera o valor do conserto. “Quem compra relógio barato não manda consertar”, diz Odair. “Não sei exatamente quando, mas não vai demorar para a profissão de relojoeiro desaparecer. É a evolução dos tempos”, prevê ele.
O camelô Valdemir Pizelli, dono de uma barraca próxima à Praça Rui Barbosa, vende cerca de 20 relógios de pulso e dez despertadores por mês. Os modelos mais procurados, segundo ele, são sempre os mais baratos. Mesmo esses não despertam o interesse de Vilma dos Santos Pizelli, que também trabalha como camelô. Há cerca de dois anos, ela trocou o relógio de pulso pelo relógio do celular. Assim como ela, muitas outras pessoas têm feito o mesmo. Após 103 anos de história, o relógio de pulso parece condenado à aposentadoria. É o avanço da tecnologia transformando usos e costumes.