A diabetes mellitus atinge 15 milhões de brasileiros e a depressão afeta 9 milhões de brasileiros, mas em casos de alguns elas aparecem juntas, como comorbidade uma da outra. Estas duas doenças são problemas graves de saúde pública. A primeira oferece muitas complicações físicas. A segunda é muito incapacitante, sendo colocada entre as cinco doenças mais incapacitantes de acordo com Peso Global da Doença da Organização Mundial da Saúde (OMS)
Mas o que elas têm em comum e diferente quando se encontram juntas no mesmo paciente? Dos 15 milhões que têm diabetes, 90% têm diabetes tipo II, que não precisa de insulina, mas de tratamento medicamentoso. Este tipo de diabetes apresenta a seguinte sintomatologia: perda de peso, urinar demais, aumento de apetite, visão embaçada, letargia, cansaço, fadiga e formigamentos. Se um indivíduo tem diabetes tipo II, alguns desses sintomas são comuns aos da depressão, como o aumento de apetite, perda de peso e lentificação psicomotora. Com isso, pode parecer uma depressão o início dos sintomas da diabetes tipo II. Mas um indivíduo com depressão, além da fadiga e perda de peso, também apresenta humor deprimido, diminuição do prazer e interesse, sentimento de culpa e intenção suicida, que, geralmente, não aparecem no indivíduo só com diabetes tipo II.
Pode acontecer da depressão vir primeiro e a diabetes depois, ou vice-versa. A piora de uma pode parecer a piora da outra. E uma delas ainda não sendo diagnosticada pode complicar o caso. Pode, também, um indivíduo com predisposição à depressão, ter diabetes e depois de instaladas complicações dessa, estas serem fatores estressantes para provocar depressão secundária à condição clínico-médica.
Depressões primárias acontecem em indivíduos saudáveis, sem doenças clínico-médicas e as secundárias, geralmente, ocorrem após a instalação de sintomatologia de doenças crônicas. Do ponto de vista clínico-médico, a depressão em indivíduo com diabetes é um fator que piora o prognóstico, o tratamento e a evolução desta última. E, por outro lado, do ponto de vista psiquiátrico, a melhora de estado de humor pode melhorar o controle de doenças crônicas, como diabetes, mas, também, hipertensão e cefaléia sem curá-las.
Pacientes com diabetes e depressão e seus médicos clínicos gerais e psiquiatras, devem estar atentos aos sintomas de ambas as morbidades para adotar melhores condutas e atingir um benefício maior. Com isso, aumenta-se a aderência ao tratamento, se ambas forem tratadas. Evitá-se, também, o surgimento de complicações, muitas delas incapacitantes, com maior aderência a ambos os tratamentos. Segundo o médico Marcos Antônio Alves Brasil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o tratamento com fluoxetina e similares melhora o perfil glicêmico, níveis de glicose no sangue de pacientes diabéticos com depressão. Em minha experiência na residência médica, vi pacientes com diabetes não controlados encaminhados à psiquiatria. Quando eles foram tratados e saíram da depressão, melhoraram seus controles glicêmicos. Alguns antidepressivos aumentam apetite e, ao contrário, podem piorar o controle do açúcar no sangue. É necessário ficar atento a esses pacientes para que eles sejam corretamente diagnosticados. É preciso adotar condutas corretas, melhorar a qualidade de vida dos pacientes e evitar os prejuízos graves, tanto do ponto de vista clínico-médico quanto do psicossocial, a médio e longo prazos.
Carlos Manuel Cristóvão - médico psiquiatra - CRM 88.611)