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Negócios, verdades e ilusões


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Vivemos uma era de canibalização das relações entre patrões e empregados e entre empresas e prestadores de serviços. É uma realidade angustiante, facilmente comprovada se tivermos a humildade de encarar o que nos cerca, de nos ver no espelho ao final de cada jornada. Tanto as empresas como seus profissionais enfrentam hoje um ambiente de profunda insegurança.

Na teoria, surgem todos os dias dezenas de maravilhosas propostas sobre gestão empresarial, fantásticos processos de organização interna, soluções inusitadas e operações de lucro garantido. Na área de Recursos Humanos, por exemplo, há uma avalanche de sugestões, todas garantindo melhor desempenho, satisfação, enfim, um cenário em que trabalho e vida empresarial são sinônimos de perene felicidade.

Organizam-se seminários, convidam-se palestrantes de sucesso (em geral executivos e políticos com muita fama e pouco conteúdo), apresentam-se casos (cases é mais charmoso) de pessoas bem-sucedidas. Desses encontros, os participantes levam em geral pouco aprendizado e muitos cartões de visitas. Pagam caro para fazer relacionamentos (o tal networking) com colegas executivos de outras empresas, para saber como está o mercado e sondar oportunidades.

Temos muitas teorias e idealizamos um mundo que não existe para a imensa maioria das prestadoras de serviços ou das empresas que atuam em setores altamente competitivos. Para cada idéia criativa existem dez idéias piratas. Em meio à competição pela conquista do cliente, surgem ofertas de preços aviltantes que, em geral, comprometem a qualidade dos serviços oferecidos. Se o cliente quer sempre mais sem nada pagar por serviços adicionais, não há saída. Ou ele será mal atendido ou o atendente terá de trabalhar mais horas por dia.

Na relação entre as empresas, ganha fôlego um conceito perigoso: eu pago, eu posso exigir o que quiser. Se alguém não topar, há outro que aceita o desafio. Os contratos, em geral, não são respeitados. E nesse círculo contaminado de nosso mundo globalizado, a qualidade fica em segundo plano.

Todas essas pressões se refletem na pressão sobre os funcionários. As metas são cada vez mais numerosas, e as ferramentas, mais enxutas. Não se admitem erros. Exige-se constante superação. Criam-se exigências que muitas vezes vão além da capacidade de execução do ser humano. O resultado é óbvio: funcionários insatisfeitos, sempre à procura de um emprego menos escravizante.

Exemplos não faltam. A mídia costuma citar com freqüência as pressões a que são submetidos os operadores de call center, mas, em geral, esquece de dizer que são as próprias empresas contratantes que exigem metas rígidas da própria empresa contratada.

E assim é com uma gama enorme de profissões, do atendente na loja, no restaurante, ao entregador de pizza. Reclamamos dos motoboys e exigimos que sejam pontuais, mas reclamamos da postura deles no trânsito. E o que dizer do caixa do banco que tem descontado de seu salário qualquer erro de cálculo cometido? Que importa se ele teve de enfrentar uma fila enorme de clientes e operar em um ambiente de extrema pressão?

Tal situação se aplica também às grandes corporações, palco de atividades onde jovens de futuro promissor e excelente preparo são submetidos a jornadas de 12 ou 14 horas de trabalho diário, sob extrema pressão. O resultado é preocupante: cria-se uma geração de executivos estressados e perigosamente competitivos.

Há uma diferença crucial entre teoria e prática nas relações que permeiam o mundo dos negócios. A competição é desumana. Essa é a primeira verdade que deve ser repassada aos candidatos a empreendedores ou aos jovens que estão transpondo a porta do primeiro emprego. É melhor vender a verdade do que ilusões. Os indispensáveis conceitos técnicos têm de se aproximar mais da realidade. Talvez seja o momento de reavaliar conceitos e estratégias. Do contrário, vamos contribuir para a criação de um cenário caótico, em que os talentos serão facilmente cooptados por esta guerra corporativa.

O autor, Paulo Ancona Lopez, é diretor da Vecchi & Ancona, consultoria especializada em estratégia e gestão - e-mail: paulo@vecchiancona.com.br - site: www.vecchiancona.com.br

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