Depois de um recorde de 18 anos em exibição na TV (e ainda contando), numerosos prêmios e títulos de “melhores do século 20”, os Simpsons ganharam seu primeiro longa, que estréia no Brasil amanhã, com pré-estréia hoje no Cine’n Fun do Alameda Quality Center.
“Os Simpsons - O Filme”, põe a célebre família amarela criada por Matt Groening - o casal Homer e Marge, mais seus filhos Bart, Lisa e Maggie - em crise com os demais habitantes da fictícia Springfield, graças a mais uma trapalhada catastrófica do incorrigível Homer. O filme começou a ser pensando em 2003 e as mais de 150 versões que o roteiro teve mostram o nível de pressão sobre os criadores para que entregassem algo que fizesse jus às expectativas.
A resposta das bilheterias - o filme estreou com a maior arrecadação de uma adaptação de TV para o cinema e já faturou mais de US$ 500 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) em menos de um mês - foi acompanhada de aclamação crítica no Exterior e sugere que os criadores acertaram a mão. “‘Os Simpsons’ é uma versão mais branda da vida. Tão triste, patética e estúpida quanto”, disse Groening em entrevista em 2004.
O simulacro da vida urbana moderna que é o desenho talvez responda também pelo enorme impacto cultural que “Os Simpsons” causaram. Sua influência pode ser contada em livros: eles já foram usados para explicar filosofia, religião, psicologia, sociologia e até física. Também foram dicionarizados - a interjeição “D’oh!”, de Homer, entrou no Oxford - e transformados em cursos universitários, como “Simpsons e Filosofia”, na Universidade Berkeley (EUA).
“Eles basicamente reinventaram a roda”, disse o desenhista Seth MacFarlane, criador da também popular série animada “Family Guy”, em entrevista à revista “Vanity Fair”. “Eles criaram um meio novo, completamente original.”
Em entrevista, Groening explicou como uma família tipicamente americana conseguiu ressoar no mundo todo. “Acho que as fraquezas de uma família em que os membros se amam mas também enlouquecem uns aos outros são universais. E também acho que é divertido rir de americanos estúpidos.”
Crises internas
A ascensão do seriado não foi sem percalços. Groening brigou primeiro com o produtor e roteirista Sam Simon, que muitos consideram o responsável pelo refinamento da série em seu início, e depois com James L. Brooks, produtor-executivo que levou o desenho à TV. Houve ainda dois protestos dos dubladores por aumentos salariais, ambos bem-sucedidos. As vozes de profissionais como Nancy Cartwright (Bart), Dan Castellaneta (Homer) e Harry Shearer (Senhor Burns) tornaram-se indissociáveis dos personagens e hoje custam “mais de US$ 100 mil por episódio” (mais de R$ 200 mil), segundo o chefão Murdoch.
Mesmo com todo o sucesso, seus criadores são céticos ao falarem de sua influência. Também à “Vanity Fair”, Tim Lang, um dos produtores-executivos da série, argumentou que o desenho não tem o poder de causar mudanças políticas, por exemplo - Groening e seus parceiros são democratas e fizeram campanha para Al Gore na disputa com George W. Bush, em 2002. “As pessoas exageram a importância da comédia. Na melhor das hipóteses, os comediantes são como aquele rapaz parado em frente aos tanques na Praça da Paz Celestial (na China, em 1989).”
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Com humor apurado, filme é digno da série
A dúvida dos fãs era se, ao fim do tão aguardado filme dos Simpsons, a reação seria um “D’oh!” à la Homer ou um “Excelente” ao estilo de Montgomery Burns. A boa notícia: o resultado é, sem trocadilho, animador. Desde que surge o logotipo da Fox, com o hilário Ralph Wiggum dublando a fanfarra da empresa, até os créditos finais com piadas escondidas, “Os Simpsons - O Filme” tem uma sucessão de humor digna do melhor seriado animado da história.
Há desde as gags mais simples (trombadas, acidentes etc.) até a ironia e o sarcasmo mais refinados. Agigantada pela tela de cinema, a animação ganha espaço para cenas mais elaboradas, com centenas de pequenas piadas e referências visuais - e tudo isso no cada vez menos usado estilo 2D.
Os mais xiitas podem reclamar que esse ou aquele personagem aparece menos e que alguns cânones da história original foram mudados (como o casamento de Homer e Marge), mas isso não diminui a qualidade geral da obra e não altera a sensação final: valeu a pena esperar.