Bairros

‘Zé do Mato’: dedicação ao meio ambiente

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Não é possível falar do Horto Florestal de Bauru sem falar de José Carlos Bollinger Nogueira ou, simplesmente, ‘Zé do Mato’, como é conhecido o homem que administrou o horto por mais de quatro décadas e conhece aquela área como nenhum outro é capaz de conhecer. Agrônomo de formação, pode ser considerado uma enciclopédia, já que sua memória privilegiada o permite versar sobre os mais diversos tipos de árvores e plantas, e suas origens.

Depois de 47 anos vivendo no horto, ele vai se mudar para Campinas, mas deixará um legado de mais de 1.000 espécies de árvores que foram documentadas e identificadas por placas. O maior trabalho de quem for documentar as demais espécies será escrever à mão, já que todas estão anotadas em cadernos. Se por acaso forem passar para o computador, com certeza será gasto muito tempo, dado o número de anotações.

A reportagem do JC procurou Zé do Mato para uma entrevista sobre o horto, e recebeu uma aula de biologia, geografia e história, em uma única tacada. Foram mais de duas horas de conversa que, mesmo reproduzindo palavra por palavra do que foi dito, não seria a mesma coisa que ouvi-lo contar. Por isso vamos reproduzir alguns trechos, para o leitor conhecer um pouco mais o que é o horto florestal e sua importância para Bauru.

Formação

“O primeiro passo para a formação de áreas verdes preservadas no Estado de São Paulo foi, por incrível que pareça, causado pelos grandes produtores de café. No século 19, as fazendas de café começaram a se expandir, através do Vale do Paraíba, chegando a outras regiões do Estado. Quando o café chegou em Campinas, o Império estava no fim, e a expansão continuou. Antes de deixar o trono, porém, Dom Pedro II criou o Instituto Agronômico de Campinas, e, pode-se dizer, foi o começo da história do Horto Florestal de Bauru.

“Nesse meio tempo, o café continuou se expandindo para várias regiões do Estado. Com a expansão, as ferrovias também começaram a crescer e, para construir as linhas, era necessário utilizar muita madeira. Com isso, as florestas que existiam no Interior de São Paulo foram sumindo. Algumas reservas permaneceram, mas grande parte dos jequitibás que existiam no Estado foi sumindo aos poucos.

“A partir daí, o governo do Estado começou a adquirir as terras de algumas fazendas para reflorestar e formar as áreas de experimento, ligadas ao Instituto Agronômico, criado em 1897. Nesta leva, a Prefeitura de Bauru tinha uma área que havia sido adquirida como pagamento de uma dívida de um fazendeiro local. Como o Estado precisava de um lugar para fazer os experimentos com eucaliptos, que foram trazidos da Austrália por Navarro de Andrade em 1910, primeiro para Jundiaí, depois para Rio Claro.

“Após a criação do horto em Bauru, por meio de escritura pública, o eucalipto foi a primeira árvore não nativa plantada no local. O caderno com as anotações de Navarro de Andrade está até hoje no horto de Bauru e mostra a data do plantio, em 1932. A partir daí, foram mais de 1.000 espécies diferentes trazidas para a cidade, que ajudaram a formar os 43 hectares do horto florestal. Além do eucalipto, o horto de Bauru também tem muitas espécies de pinus, que foram comprados pelo governo em 1960, oriundos da América Central”, relata Zé do Mato.

No ano em que ele assumiu a chefia do horto, as árvores começaram a ser plantadas e evoluiram. Onde não foram plantados eucaliptos e pinus no horto, Zé do Mato plantou espécies nativas e exóticas, com alguma dificuldade, já que das mais de 1.500 espécies que chegaram, nem todas foram para frente.

A proximidade do horto com a cidade, na visão de Zé do Mato, prejudica a vida de animais que poderiam habitar o espaço existente. “Não há condições de sobrevivência para os animais, mas alguns ainda persistem, na sua maioria pássaros, que, dependendo da espécie, é preciso ter sorte para avistar, como os tucanos, que estão lá, mas pouca gente tem a oportunidade de ver.”

Entre as espécies animais, de acordo com o ex-diretor, é possível encontrar cachorro-do-mato, cobras, cutia, tucanos, papagaio, maritaca, tirica, tuim, sabiá, siriema, pombas tuiutis, tatus, e outras.

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Diversidade

A chegada de Zé do Mato ao Horto Florestal de Bauru deu mais diversidade de espécies ao local, onde predominavam os eucaliptos e os pinus. Atualmente podem ser encontradas árvores dos mais variados tipos e tamanhos, que chegaram ao horto pelas mãos do administrador.

Além de jatobás e ipês, no horto há plantações de peroba, pereira, cabreúva, palmeiras, pinheiro do brejo, jequitibá branco, araribá, jequitibá rosa, entre outras. No meio do horto ainda é possível encontrar o tronco e as cascas da árvore de peroba, que era nativa da região, mas não sobreviveu à ação do homem. Em resumo, o horto foi pioneiro em espécies nativas.

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