A impossibilidade de o indivíduo bastar-se a si mesmo fez surgir o território do encontro. Os gregos tinham a ágora, na qual se fazia o mercado e as assembléias do povo. Quem tem medo mórbido e angustiante de lugares públicos sofre de agorafobia. Esse lugar simbólico é aonde crescem as sensações de identidade e orgulho urbanos, entrelaçando a cidade real e a cidade imaginada. Esse lugar eleito, embora criado artificialmente, no Brasil chamam de “calçadão”. Em Portugal descobri que é “trecho pedonal”, quase um nome feio. Na Espanha, “passeo peatonal”. Peão é quem anda a pé, antes de ser amansador de cavalos, burros e bestas.
A idéia do calçadão nasceu da reconstrução das cidades européias destruídas pela guerra. Chegou ao Brasil tardiamente, há 30 anos. O primeiro foi o da Rua das Flores, em Curitiba. O nosso, na Rua Batista, completa 15 anos dia 22. O prefeito Izzo Filho teve que enfrentar a resistência dos comerciantes com medo de perderem a freguesia. Temor infundado, como hoje se demonstra. As cidades precisam, cada vez mais, de subversões do espaço urbano que rompam com a monotonia, despertem curiosidade, gerem discussões e promovam transformações dinâmicas. Sem isso a cidade envelhece, perde a alma, e morre. Particularmente, não perco uma manhã de sábado no calçadão. Antes disso o bauruense já havia criado o verbo “batistar” como sinônimo de jogar uma conversa fora na Rua Batista; ou assistir ao interminável desfile de personagens pirandellianos, vivos e fascinantes e que sempre nos surpreendem nas manhãs ensolaradas. De repente é uma popuzuda que passa vestida com microcomprimentos e maxidecotes a exibir o seu melhor rebolado. Alguém que desembarcou do ônibus vinda da periferia mais distante, mas disposta a desfrutar do mesmo sol e ter seu dia de Camila Pitanga.
Há um conjunto de signos analisáveis. A cidade é resultado das interferências de seres portadores de necessidades. Um deles é o alimento para a alma.Vivemos num tempo em que os ricos procuram se isolar em condomínios fechados por muros altos e vigiados. As ruas servem apenas à circulação de veículos, de vidros enfumaçados, para ninguém identificar quem está dentro. Daí a necessidade, cada vez maior, de um espaço que provoque a polarização de ricos e pobres. Um quer ver o outro de perto. Zoológico sem grades.
Freqüento a mesa do Café-Zinho, recriador do extinto Juca Pato. Está bem em frente à antiga Casa Luzitana, ponto de tantos encontros depois da missa na Catedral. Reintegrar o tempo da origem significa reencontrar a presença dos deuses.Há um quê de sagrado na nostalgia do ser. Lá é possível ouvir Ary Garcia contar sua última viagem pelo Reno e o eco ouvido do rochedo de Lorelei, inspirador de Wagner na “Cavalgada das Valquírias”. Também passamos a cidade em revista, sob a observação crítica do vereador Toninho Garmes, capaz de ser traído por um momento de ternura e pagar a rodada de café. A conversa pode ser interrompida pelo maltrapilho inchado pela bebida, formado em engenharia, filho de família importante. Guarda em segredo o que o levou à ruína. Raduan Trabulsi está preocupado com o velhinho da rua que, depois de anos, há várias semanas não aparece para receber a cesta básica e a nota de dez reais. Mulheres e homens trocam cumprimentos com os conhecidos, cobram os políticos, consolam os aflitos. Do nada surge o Bill com o seu “chá de parafuso”, tiro e queda para cólica de rins. O calçadão é assim... Foi preciso que alguém o inventasse para ser eleito pelo povo e ganhar alma. Bauru precisa de outros tipos de interferências capazes de dar identidade e motivo de orgulho aos cidadãos. Como observou o Macalé, estonteado com o desfile de uma leva de garotas de panos tão escassos quanto permite o veranico: “a Batista é a nossa Broduei”.
Desafiado que fui pela coluna Entrelinhas a “parir” um artigo sobre os 15 anos do calçadão, disciplinado, tentei dar conta do recado. Como se diz no nosso meio, “todo jornalista é um filho da pauta”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC