Política

‘Números mostram ignorância sobre tamanho da predação’

Por Alceu Luís Castilho | Correspondente do JC em Brasília
| Tempo de leitura: 2 min

Professora da Universidade de São Paulo (USP), egressa do Ministério das Cidades, Ermínia Maricato ficou impressionada com a colocação do item “transportes”, segundo ela a prioridade prevista, junto com habitação

Ex-secretária-executiva do Ministério das Cidades, Ermínia Maricato soube pela reportagem dos dados sobre aprovação de Planos Diretores Participativos. Ela ficou particularmente impressionada com a colocação do item “transportes”, o último na lista de temas estudados nos municípios. “Esse era, junto com habitação, a prioridade do próprio ministério”, afirmou.

Ermínia é uma das maiores especialistas brasileiras no assunto. Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) da Universidade de São Paulo, ela diz que os números “confirmam o cenário mais crítico que se esperava”. “O fato de esses temas não estarem entre as prioridades significa que a cultura histórica e tradicional prevaleceu, essa cultura voltada para o mercado privado”.

Segundo ela, as “cidades invisíveis” continuaram de fora, a julgar pelos números divulgados pelo governo federal. “Transporte é um dos itens mais importantes”, explica. “Quando você quer induzir o crescimento em algum local, você leva ruas, avenidas, linhas férreas. É incrível esse item ocupar a última colocação”.

Ela explica ainda que a predação ambiental ocorre hoje pela moradia, por meio do esgoto doméstico e da ocupação de áreas frágeis. Para completar, Ermínia considera que parte dos Planos Diretores aprovados, embora possam até ter boa intenção, acabará promovendo a exclusão. “A territorialização voltada para o mercado privado acaba mais expulsando que incluindo”, diz.

“Pelo jeito venceu a cultura convencional, a invisibilidade, a ignorância do tamanho da irregularidade urbanística, do quanto ela é predatória ambientalmente, de quanto nosssas cidades estão demasiadamente espraiadas e exigindo viagens longas”.

A pesquisadora considera que a campanha pelos Planos Diretores Participativas foi bem sucedida na medida em que conseguiu despertar os municípios para sua elaboração, conforme prevê o Estatuto da Cidade. “Mas de um modo geral, eles não são implementados, ou só o são em pequenas partes da cidade”, diagnostica. “O pesquisador Flávio Vilaça estava certo ao escrever um livro sobre a ilusão do Plano Diretor”.

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