Tudo indica que o brasileiro está mais preocupado com seu futuro financeiro. As aplicações em poupança vêm crescendo consideravelmente nos últimos meses. De acordo com dados do Banco Central, a diferença entre o total depositado e as retiradas entre janeiro e julho deste ano foi positiva em R$ 12,281 bilhões, a maior desde 1995.
O motivo dessa tendência, observam especialistas, é a migração de investidores que aplicavam em fundos de renda fixa ou DI para as cadernetas de poupança. Esse fenômeno teria sido provocado pela diminuição da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) associada à manutenção da taxa de administração.
“Se eu tenho uma remuneração via taxa de juros que é cada vez menor e uma taxa de administração estável, significa que a minha rentabilidade real será menor. E como a caderneta de poupança é isenta de Imposto de Renda e também de taxa de administração, principalmente para pequenas aplicações, a poupança acaba rendendo muito mais que os fundos de renda fixa normais”, explica o economista Fernando Pinho.
Outro fator apontado como propulsor do crescimento dos investimentos em poupança é o aumento real de renda de algumas classes de trabalhadores. “Por conta da concessão de dissídios favoráveis além da inflação, essas categorias puderam poupar um pouco mais”, acrescenta o economista.
Segundo ele, o panorama é extremamente viável ao mercado imobiliário. Com a poupança em alta, o montante de recursos disponíveis ao tomador de crédito, via mercado imobiliário, também cresce, possibilitando ainda a ampliação dos prazos de amortização do financiamento.
“Existe hoje um montante de dinheiro à disposição na caderneta de poupança que é muito maior do que há seis anos. Dessa forma, o sistema financeiro de habitação tem condição de conceder ao mutuário um prazo maior para ele pagar as prestações”, completa Pinho.
Para o economista, o sensível impulso nos investimentos em cadernetas de poupança reflete uma preocupação que sempre foi pouco comum no País: a necessidade de poupar. “No Brasil não temos uma cultura de poupar, a começar pelo governo federal, que é o maior exemplo para o cidadão comum.”
Pinho avalia que houve melhora na expectativa da sociedade em relação à economia nacional. “Se a pessoa tem reservas financeiras, significa que está confiando um pouco mais na economia”, justifica.
Conscientização
Fazer reserva de dinheiro é recomendável para qualquer pessoa. Na opinião de Pinho, a população está se conscientizando sobre essa necessidade, o que também pode explicar a preferência, atualmente, pelas cadernetas de poupança.
“Isso demonstra que as pessoas estão procurando fazer uma reserva para possíveis adversidades que qualquer família pode sofrer. Amanhã, qualquer um pode ficar desempregado, ter alguém doente na família ou mesmo planejar comprar um automóvel, mandar o filho para o Exterior e ter de mantê-lo na faculdade”, comenta Pinho.
É o caso da corretora de imóveis Claudete Beghini Silva, que não abre mão, todos os meses, de reservar 10% de seu salário.
Ela conta que guarda dinheiro na poupança há dez anos, hábito que nasceu da necessidade de se precaver com o próprio orçamento. “Como sou comissionada, não sei o quanto vou receber no final do mês. Essa reserva serve para eu me socorrer nos meses em que recebo salário mais baixo”, explica.
Com a poupança que conseguiu formar durante todos esses anos, Claudete também conseguiu fazer uma cirurgia nos olhos. “Como o plano de saúde cobria apenas uma parte da operação, tive que pagar o restante. Só consegui porque tinha essa poupança”, conta.
Neste final de ano, a corretora de imóveis pretende trocar de carro, também com auxílio da reserva da poupança. “Adquiri esse hábito com meus pais, que conseguiram a casa onde moram dessa forma, juntando dinheiro.”
Claudete diz que sempre preferiu aplicar suas reservas financeiras em caderneta de poupança porque acha o sistema mais prático para o usuário, principalmente no resgate do dinheiro.