São Paulo - Na abertura de seu 3.º Congresso Nacional, o PT entrou em rota de colisão com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao defender abertamente a antecipação do debate sobre a eleição presidencial de 2010, com um nome do partido na cabeça de chapa. Lula, que faria a abertura solene do evento à noite, surpreendeu ao cancelar sua participação e remarcá-la para hoje, o que foi interpretado por petistas como um recado de que ficou insatisfeito com o partido.
Além de atribuir o adiamento à agenda, petistas com trânsito no Palácio do Planalto explicaram que o presidente temeu presenciar críticas ao Ministério Público e ao Judiciário. Pesou a avaliação de que um presidente da República não pode endossar manifestações contrárias a outros Poderes. Daí, a decisão de participar do encontro num momento em que não houvesse outros oradores no congresso.
Com isso, Lula foi poupado do desconforto de assistir a gestos de desagravo ao ex-ministro José Dirceu e ao deputado José Genoino. “O presidente julgou mais produtivo fazer um pronunciamento ao plenário do que uma falação numa abertura onde muita gente vai se pronunciar”, justificou o presidente do PT, Ricardo Berzoini, informado da decisão pelo chefe-de-gabinete de Lula, Gilberto Carvalho. Lula viajou no início da noite para São Paulo.
Até o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, um dos petistas mais próximos de Lula, se mostrou surpreso. “Não sei o que aconteceu, estava tudo certo para ele comparecer”, disse.
Embora o centro de convenções tenha passado até por varredura da segurança da Presidência, Lula avisou, de manhã, que não poderia comparecer ao encontro ainda ontem, como estava programado há dois meses. A decisão surpreendeu o comando partidário e exigiu alteração em toda a agenda.
2010
Em entrevistas e durante o primeiro painel de debates, acompanhado por cerca de 2 mil pessoas, dirigentes de praticamente todo o espectro ideológico da sigla defenderam a candidatura própria em 2010. As alas ontem tentavam negociar um modelo único para a resolução final do congresso, em que o PT deixaria claro desde já que terá um nome para a sucessão de Lula. Como um agrado ao Planalto, preocupado com o efeito na base aliada, haveria duas ressalvas: uma, de que o nome seria apresentado à coalizão, e a outra, de que isso não ocorreria agora, mas “no momento certo”.
O partido dá claros sinais de que está preocupado com o excessivo descolamento de Lula do PT. Num discurso muito aplaudido, o secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, da Articulação de Esquerda, advertiu que “o governo pode ser um enorme sucesso, mas podemos chegar em 2010 com nosso partido enfraquecido”.
Na mesma linha, a 2.ª vice-presidente da sigla, Maria do Rosário, do Movimento PT, afirmou que “o fortalecimento do partido passa por candidatura própria em 2010”.
O deputado federal José Guimarães (CE), da Construindo um Novo Brasil, disse que o partido não pode simplesmente não tocar no assunto. A expectativa é que o presidente, hoje, tente puxar o freio no ímpeto petista. “Acho uma bobagem falar de 2010 agora. O PT quer falar? Precisa combinar com os russos”, disse Marco Aurélio, em alusão a Lula.