Embalado pelos indicadores favoráveis, especialmente pelos US$ 160 milhões de reservas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez anteontem a primeira previsão de impacto na economia nacional da crise imobiliária norte-americana que contaminou os mercados mundiais nas últimas semanas.
Para o presidente, caso a turbulência persista, o reflexo seria uma redução de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB), contrariando o patamar indicado pelo ministro Guido Mantega (Fazenda) em reunião ministerial realizada anteontem em Brasília.
“O Brasil se mostra muito tranqüilo e, qualquer que seja a durabilidade desta crise, mesmo os analistas internacionais dizem que se houver retração seria uma redução de 0,1%, ou quase nada”, disse o presidente durante entrevista a representantes de 11 jornais, entre eles o Jornal da Cidade.
Para Lula, a ‘calmaria’ está relacionada com os fundamentos macroeconômicos. “Isso se deve à robustez da economia brasileira. Temos um crescimento bom. Eu sempre digo que prefiro que a economia cresça 10, 15 anos e seja sustentável. Acho que teremos um ciclo histórico de crescimento vigoroso.”
O petista não perdeu a oportunidade de comparar as taxas de crescimento de seu governo com as eras de mais prosperidade no quesito. “Estou convencido de que o momento é singular, pois temos uma combinação de fatores positivos. O Brasil cresceu 7% no governo Juscelino Kubitschek, mas com uma inflação de 23%. Cresceu 14% em 73, mas com o salário mínimo diminuindo.”
O petista disse que se reúne periodicamente com a equipe econômica do governo - que cunhou nova marca à gestão (o desenvolvimentismo social) - para avaliar as condições dos mercados e a reação do País ante o cenário global. “Toda semana me reúno com os ministros, com o presidente do Banco Central e não vejo nenhuma turbulência, nenhuma nuvem que possa atrapalhar”, afirmou Lula, esbanjando otimismo.
Previsão
Lula vai adiante e antevê o breve ingresso do Brasil no rol das economias mais desenvolvidas do mundo. Cita como referência para tal impulso o fator ‘energia limpa’. “Estou convencido de que o Brasil será uma economia pujante, entrará no G-8, do G-7 nos próximos 15 anos. O mundo vai se subordinar aos biocombustíveis. É uma exigência que se use mais combustível limpo.”
Além das reservas, o País acumula superávits na balança comercial e em conta corrente, o que tem ajudado a manter a tranqüilidade da equipe econômica. O temor na economia mundial foi desencadeado pela crise no setor imobiliário dos Estados Unidos, que vivenciou uma escalada nos últimos anos, mas entrou em colapso com a alta inadimplência decorrente do barateamento do crédito.
A âncora do problema é o chamado ‘subprime’ (crédito de segunda linha), que tem mais riscos embutidos e possui taxas de juros mais elevadas. Com a bolha imobiliária norte-americana, o calote nos títulos ‘subprime’ provocou efeito cascata no país, gerando falta de liquidez e forte retração econômica.
O cenário colocou em pânico os mercados internacionais, derrubando bolsas (especialmente as asiáticas) e provocando oscilações no câmbio.