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Entrevista da semana: Ruth Nham, uma vida sobre ponteiras

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 10 min

“Um dia uma aluna me ligou e disse: Dona Ruth, o palhaço tem vez? Não, não tem. Ela ouvira a música ‘O Palhaço’, de Egberto Gismonti. Contei a história de um palhaço feliz, que alegrava as pessoas e que foi ficando sozinho. No fim, uma criança lhe dá uma flor e c´est fini”.

As palavras da bailarina e professora Ruth Nham, uma das pioneiras do balé clássico em Bauru, contam a história de uma de suas criações coreográficas. Porém, na vida real, a história não tem um final melancólico. Cheia de vida e arte, esta alegre senhora de 81 anos continua cercada pela boa música, pela dança e por pessoas que a admiram como mulher e bailarina.

Participante dos três primeiros Congressos Sul-Americanos do Ensino da Dança. Mestra que levou sua companhia ao Festival de Joinville e a Córdoba. Homenageada com o prêmio “Anna Pavlova” como uma das cinco melhores bailarinas do Brasil. Ruth Nham preencheu os palcos do Municipal de São Paulo e dos teatros de Bauru com um pouco de sua visão poética do mundo e sua força de vida.

Dona Ruth vê a vida do alto das ponteiras das sapatilhas e, assim, diminui as amarguras e problemas que o mundo lhe oferece. Uma aula de balé, um pouco de cultura e um lado desconhecido desta mulher guerreira estão aqui.

Jornal da Cidade - A senhora veio de onde, dona Ruth?

Ruth Nham - Sou paulistana. Nasci em São Paulo e morei no Bosque da Saúde. Era filha única. Em casa só eu, papai e mamãe. Minha infância... saí de uma escola de freiras, era péssima, jogava bolinha de gude com os moleques na rua. Ganhava deles, saía correndo com o saco cheio de bolinhas. Depois que entrei no balé, acabou.

JC - Como a senhora começou a dançar balé clássico?

Ruth - Comecei a dançar em uma época, não sei bem, mas muitos bailarinos russos vieram ao Brasil. Havia a guerra entre comunistas e não comunistas e muitos grandes artistas “fugiram” especialmente para São Paulo. Eu tive o privilégio de ter grandes professores. Não tive problemas em casa, eu simplesmente fui fazer. Decidi que eu iria dançar com 12, 13 anos. E então dancei, dancei e dancei...

JC - Onde a senhora começou a dançar?

Ruth - No Teatro Municipal de São Paulo. Lá tive aulas com nomes como Madame Olenewa, Halina Biernacka, grandes professores daquela época. Naquele tempo exigia-se muito do balé e o povo que ia com a finalidade de dançar e aprender, ia com todo esse entusiasmo de dançar com alma.

JC - Quando a senhora decidiu ser bailarina, houve algum tipo de objeção por parte da sua família?

Ruth - Não. Meu pai não me incentivou, mas não proibiu. Eu era um espanto na rua onde morava. As pessoas cochichavam (diz em voz baixíssima) “ela está fazendo balé!”. Porque naquela época os artistas não eram lá muito bem vistos, mas acho que eu nunca liguei para isso. A minha cabeça era outra, nunca tive brincadeiras de criança... Eu queria era dançar.

JC - A senhora disse que começou a dançar depois dos 12 anos. Mas a gente sempre escuta que no balé tem que começar cedo. Não foi um pouco tarde? A senhora concorda com essa iniciação precoce?

Ruth - Acho bom que se comece a dançar com 5, 6 anos. Mas por outro lado, aquela que começa mais tarde tem todas as possibilidades de dançar muito bem, porque já desenvolveu a consciência corporal. Quando a garota ou o garoto são pequenos é bom porque o balé “conserta” pernas tortas, costas tombadas. Ou seja, a dança arruma desde cedo a postura da pessoa.

JC - A senhora dançou quanto tempo no corpo de baile do balé do Teatro Municipal de São Paulo?

Ruth - Eu fui, e a maior parte dos bailarinos vai, para o balé com aquele encantamento, não tem importância o tempo. Posso comparar meu entusiasmo para com a dança, talvez, como o de um pintor quando vai realizar um quadro. O pintor entra no quadro que está pintando e o balé fez isso comigo e com minhas amigas, eu me lembro. Nós nos víamos inebriadas pelo balé. Fui colega de grandes bailarinas como Madalena Nobre e Nice Leite. Foi um tempo maravilhoso, um tempo de revolução aqui no Brasil. Os artistas eram muito perseguidos, mais os escritores, pintores. Os bailarinos até que não eram, acho que não ligavam para os bailarinos.

JC - Como era o contato com a vanguarda artística daquela época?

Ruth - Tudo era efervescente, a música, as artes plásticas, a dança, era outra atmosfera. Era tempo de (Cândido) Portinari... Ele fez inclusive uma caricatura minha. Engraçado, acho que a gente voa muito, a minha cabeça voa muito, graças a Deus. E por mais que as coisas fossem difíceis, a gente estava envolvido com a cultura, dançando.

JC - Como eram os ensaios no Municipal? Qual era o sonho da senhora quando entrou para a dança? A senhora gostaria de ser a primeira bailarina?

Ruth - Os ensaios eram sempre feitos com orquestras, quem geralmente regia para o balé era o maestro Ítalo Izzo, não havia essa coisa de música mecânica, eletrônica. Um dia fomos ensaiar com Halina Biernacka, mas a Orquestra Sinfônica estava ensaiando e só depois poderíamos entrar. Quando eles terminavam, a demora para sair era enorme. O João (Nham), meu namorado naquele tempo, invadiu o palco dizendo: Halina Biernacka, você é uma louca! Duas horas da manhã e são meninas de família. A professora pediu para o cuidador do teatro colocá-lo para fora (risos). Meu sonho... acho que nunca pensei nisso. Eu só queria dançar. Aula era uma coisa inexplicável. Quando vinham as óperas estrangeiras as companhias não traziam seus balés, quem dançava era o corpo (de baile) do Municipal. Nós não ganhávamos dinheiro para dançar, a chance eram essas apresentações com as óperas.

JC - Era uma vida difícil? A senhora chegou a trabalhar em outra coisa para poder dançar?

Ruth - Olha, depois de muitos anos fui dar aulas de balé, mas enquanto eu dançava eu só dançava. Hora da aula, hora do ensaio! É difícil dizer, minha cabeça estava voltada para a dança, é como respirar. Não precisei trabalhar porque meu pai me dava respaldo. Acho que a vida do bailarino é como a vida do atleta, um contínuo trabalho, um contínuo treinamento. O bailarino, assim como o atleta, se prepara para a apresentação. Quando ela acaba, volta ao trabalho. Não há descanso.

JC - Quem a senhora admirava na época como bailarinos?

Ruth - Os bailarinos russos vinham todos cercados por uma auréola, depois vieram os ingleses certíssimos. Mas os russos vinham envoltos em uma “mágica”. Quando você vê a mesma dança dançada por uma pessoa daqui, da Inglaterra, de onde for e por um bailarino russo, é totalmente diferente. Acho que esse “dançar a vida” que os russos passam ficou com os bailarinos brasileiros daquela época.

JC - Qual foi a obra que a senhora dançou que marcou sua vida como bailarina?

Ruth - Dancei muita coisa que gostei. Naturalmente Lesi Friedman, que é clássico. Mas a minha paixão são alguns pas de deux como O Lago dos Cisnes e A Bela Adormecida. Nos pas de deux nós dançávamos com os bailarinos, então era diferente. Mas na verdade, para mim, dançar era dançar. Com um bailarino num pas de deux, sozinha ou com o grupo. Quando dançamos num grupo, é óbvio que não sobressaímos, mas a formação daquele conjunto...

JC - Como a senhora veio para Bauru?

Ruth - Meu marido João Nham era técnico e veio com o médico Raul Negrão Fleury, saídos do Hospital do Servidor Público, em São Paulo. São 39 anos que estou em Bauru. Aqui eles montaram um laboratório de anatomia patológica. Não havia os serviços na cidade, depois de Bauru os serviços se estenderam para toda a região.

JC - Como a senhora conheceu o ‘seo’ João?

Ruth - Naquele tempo, floria o Partido Comunista e não havia um só artista que não tivesse uma simpatia pela causa. Um dia, subi a rua Itapiru (no Bosque da Saúde) em busca de uma das salas do partido. Entrei, meu marido estava lá. Ele perguntou aonde eu morava e eu respondi que na rua Itapiru. “ Eu moro na Itororó”, disse ele, que me tomou pelo braço e nunca mais nos separamos. Estamos casados há 55 anos.

JC - A senhora chegou a entrar no Partido Comunista?

Ruth - Talvez eu tenha ido em uma ou outra reunião, mas não me envolvi. E também não sei porque...

JC - Como foi sair de São Paulo e vir para o Interior há 40 anos?

Ruth - Tinha quatro filhos na barra da saia e pensei “onde vou parar”? Levei um baita susto, ia toda semana para São Paulo fazer aulas. Quando eu cheguei não havia balé em Bauru e eu precisava fazer alguma coisa. Comecei a dar aulas no BAC (Bauru Atlético Clube). Do BAC fui para o Colégio São José e depois recebi uma proposta do BTC (Bauru Tênis Clube), e desde então estou aqui. Aqui, criei coreografias para a cidade, algumas delas foram o “Uirapuru”, com música de Villa-Lobos, e “Gabriela Cravo e Canela”, que está no Museu de Jorge Amado, na Bahia. Em “Verde que te quero verde”, de Gabriel Garcia Lorca, já falávamos em preservar o meio ambiente (e essa lista vai longe).

JC - A senhora é mais feliz como: dando aulas, dançando, coreografando?

Ruth - Não dá mais para dançar, só faço alguns passinhos. Mas agora me satisfaço quando vejo uma bailarina dançando.

JC - Como a senhora vê o balé atualmente?

Ruth - O balé serve para o corpo e para a mente, então ele nunca vai morrer. Todas as outras danças passam, mas o balé não.

JC - Como é a sua relação com outros tipos de arte, como a música, o cinema, a literatura?

Ruth - Eu gosto de ler e ouvir música, não barulho. Para mim, ouvir música é ouvir coisas boas. Gosto dos clássicos, mas não agüento uma maratona só com Tchaikovsky ou Beethoven. Gosto de música moderna, brasileira: Villa-Lobos, Dorival Caymmi, mas essa tal de música eletrônica não me diz nada.

JC - O balé sempre foi encarado como “privilégio de gente rica”. Quem podia dançar quando a senhora começou?

Ruth - O balé do Municipal era custeado pela prefeitura, mas quem quisesse aulas individuais, eram particulares. Tudo nessa vida depende de dinheiro ou talento, quem não tem dinheiro, tem que ter talento. Mas realmente, se o artista for viver da arte, morre de fome (risos). A grande arte é feita, geralmente, por quem não pode pagar.

JC - Como a senhora vê a produção cultural na época em que estava em São Paulo e hoje?

Ruth - É muito diferente. A época de Oswald de Andrade e Cândido Portinari era difícil. No balé, o bailarino homem sempre foi bem recebido, porque era raro um homem na dança. Mas parece que as pessoas eram mais interessadas em cultura.

JC - A senhora acha que os russos continuam absolutos no balé clássico?

Ruth - Sim. Há grandes bailarinos alemães, ingleses, americanos, brasileiros, mas os russos... Mas temos ótimos artistas dançando no Cirque du Soleil, na França e em tantos outros lugares. O Brasil tem ótimas escolas e recebeu influências de muitas culturas.

JC - A senhora acha que em Bauru falta impulso para a dança e a cultura?

Ruth- Sim! Antes tínhamos o impulso do Sesc Mobil, que cheguei a ganhar, mas acabou. As autoridades da cultura precisam promover todas as artes.

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Perfil

Nome: Ruth Nham.

Nascimento: 21/ 03/ 1926.

Família: ‘Seo’ João Nham, quatro filhos, 13 netos e uma bisneta.

Livro: “A vida e a época de Rembrandt”.

Filme: “Terra dos Deuses”, de Sidney Franklin, e “O velho e o mar”, de Jud Taylor.

Time do coração: Palmeiras.

Nota 10: Para João Nham.

Nota zero: Será que alguém merece um zero?

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