Tenho, sobre a minha mesa, o exemplar primoroso do livro “Rodrigues de Abreu – Poesias Completas”, organizado pelo prof. Domingos Carvalho da Silva. Mas esta edição não é a de 1952, pela Editora Panorama. Pasmem, bauruenses! Esta que está em minhas mãos é a de 2007, pela Editora Joarte, decorrido 55 anos para a sua reedição. Antes, pois, de falar da obra, é necessário que se diga da iniciativa do empresário e mecenas Alcides Franciscato, que pensou alto e achou por bem brindar a todos os amantes da poesia com esta magnífica e surpreendente tiragem. E realizou justamente num momento que se comemora, também, os 80 anos de existência do Expresso de Prata. Aliás, coincide com os 110 anos do nascimento do poeta e os 80 anos do seu desaparecimento prematuro. São datas e números significativos para a “Cidade de espantos!” - Bauru da Noroeste.
Como biógrafo do poeta, não poderia deixar de parabenizar o pioneirismo dos Franciscato, assim como a Secretaria Municipal de Cultura e Prefeitura Municipal de Bauru e, também, a Academia Bauruense de Letras. Na realidade, foram inúmeros os que se dedicaram, com amor, a reescrever a história poética do nosso país, num lançamento que causa inveja a muitos que ainda não se colocaram, com a devida brasilidade, a serviço da nossa cultura.
É-me imperioso dizer que os Franciscato poderiam, para festejar 8 décadas do Expresso de Prata, realizar pomposas festas, encher a mídia de imagens da empresa ou mesmo destinar recursos financeiros para os chamados “shows voláteis” de figuras que não acrescentam nada, com as raríssimas exceções. Não. Achou melhor destinar seus valores para a cultura literária, que a muito não se vê neste país. E, além do mais, recuperando as obras completas do poeta capivariano-bauruense.
Posso estar excessivamente entusiasmado com esta iniciativa. Mas este meu entusiasmo tem a sua razão de ser, porque ninguém, absolutamente ninguém, pensou Brasil com tanta força, paixão e reconhecimento ao talento de um poeta de dimensões universais. Uma obra como esta, reeditada com esmero e cuidado, precisa chegar ao conhecimento de outras figuras e entidades, como um colírio ou mesmo como um estímulo a acompanhar invejável procedimento de pureza, beleza e visão histórica da nossa literatura. Lamento, mas lamento profundamente, a dificuldade que tive de deslocar para estar presente no evento do lançamento da antologia, levando o meu afetuoso abraço a todos que tornaram realidade este que posso classificar como “empreendimento cultural-literário da família Franciscato”. É que contava com uma caravana de Capivari, pilotada pelo seu Secretário de Cultura, Flávio de Carvalho. Mas, infelizmente, não foi possível a viagem.
Afinados com o mesmo ideal de cultuar a memória do poeta, houve, sim, o envolvimento também de uma plêiade de entusiastas para que isto se tornasse realidade. Foram tantos que citá-los, um a um, poderia a minha memória escapar algum. E não me perdoaria, por isso. Mas falar do poeta e das suas poesias, o livro já traduz o bastante. Em cada página o que se vê é pura poesia, puro idealismo, pura certeza de um poeta que viveu a poesia e não da poesia. E, mais ainda, o seu visível amor por Bauru e por sua gente.
Quando, em 2005, fiz a entrega de todo o meu acervo pessoal sobre Rodrigues de Abreu, para a guarda permanente por parte de Bauru – deixado festivamente na Biblioteca Municipal “Rodrigues de Abreu” – parece-me que uma luz me guiou para tal intento. E não é que vejo, hoje, com os olhos brilhantes, que acertei. Está aí, o reconhecimento da cidade, não deixando no esquecimento alguém que um dia, voltando de Campos do Jordão, lá nos idos de 1926, depois de mais uma internação, querendo chegar logo e avistando a cidade, gritava de dentro do trem: - “Bauru! Bauru! Bauru!”. Parabéns, a todos os bauruenses, por este exemplo edificante!
O autor, José Roberto Guedes de Oliveira, é colaborador de Opinião