Brasília - No momento em que os mercados financeiros acabam de passar por uma turbulência internacional e em que foi aceso o “sinal amarelo” da inflação, o Banco Central decidiu, por unanimidade, reduzir o ritmo de corte da taxa básica de juros.
O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou na noite de ontem que a Selic foi reduzida de 11,50% para 11,25% ao ano, ante um corte de 0,5 ponto percentual feito na reunião anterior, realizada em julho. O corte tímido faz o Brasil permanecer na segunda colocação entre os países com maiores taxas de juros reais, com 7,3% ao ano. A liderança é da Turquia, com 9,4%, segundo a UpTrend Consultoria Econômica.
O processo de redução dos juros brasileiros foi iniciado em setembro de 2005. Ao todo, já foram 18 cortes consecutivos. No entanto, a decisão de ontem refletiu em um corte menor que o realizada nas duas últimas reuniões, como já previam os analistas do mercado financeiro.
O principal fator que justifica a menor velocidade são as pressões inflacionárias, concentradas nos alimentos. Anteontem, o ministro Guido Mantega (Fazenda) afirmou que a dinâmica de alguns preços, como o leite e seus derivados e o milho, foi afetada e que isso significava um “sinal amarelo”. No entanto, descartou que a inflação fique acima do centro da meta, que é 4,5% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
A taxa de juros é o instrumento utilizado pelo BC para manter a inflação sob controle. Se os juros caem muito, a população tem maior acesso ao crédito e consome mais. Esse aumento da demanda pode pressionar os preços caso a indústria não esteja preparada para atender a um consumo maior.
Por outro lado, se os juros sobem, a autoridade monetária inibe consumo e investimento, a economia desacelera e é possível evitar que os preços subam. No ano, o IPCA, índice oficial de preços do governo, acumula uma alta de 3,69% -nos 12 meses encerrados em julho, ele está em 3,74%.
A previsão do mercado financeiro é que o índice termine o ano em 3,92%, segundo o boletim Focus divulgado semanalmente pelo BC.
O mesmo levantamento aponta que os analistas esperam apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual neste ano. Se a previsão se confirmar, a Selic terminará 2007 em 11% ao ano. O comitê se reúne mais duas vezes neste ano: 16 e 17 de outubro e 4 e 5 de dezembro. Mas se por um lado há um “sinal amarelo” para a inflação, por outro existe o crescimento econômico indicando que não deverá ser gerada pressão inflacionária.
O crescimento da taxa de investimentos e da importação de bens de capital indicam que a indústria terá como aumentar a capacidade de produção para atender ao aumento demanda.
A utilização da capacidade instalada (mede o total de máquinas e equipamentos de uma indústria em uso) em julho chegou a 82,5%. Embora próximo ao patamar registrado em setembro de 2004 (83,2%), mês em que o BC iniciou o processo de elevação da taxa de juros para conter o aumento do consumo, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) acredita que não há risco de os empresários não atenderem a um possível aumento da demanda.
A entidade espera que os investimentos comecem a maturar entre o final do ano e o início de 2008, ou seja, as máquinas e equipamentos comprados estarão em uso pelas indústrias, o que garantirá uma produção maior para atender o consumo. O Copom divulga na quinta-feira da próxima semana a ata da reunião ocorrida anteontem e ontem.