Cultura

Rei do trash

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 5 min

“Você, você, ou toooodos vocês... aguarrrrrrrrdem... ‘A Encarnação do Demônio’ vem aí!”, anuncia a cria e/ou criador, José Mojica Marins, o Zé do Caixão, no site oficial. Após 40 anos, a fita – termo utilizado pelo cineasta – dá seqüência às truculências do sádico coveiro em busca da “mulher superior” que gerará seu filho, retratadas nos filmes “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” e “Esta Noite Encarnarei Teu Cadáver”, respectivamente de 1964 e 1967.

Para divulgar o que considera o mais violento e realista longa de toda sua carreira - e também o mais pomposo, já que Zé do Caixão ressuscita em trajes de Alexandre Herchcovitch -, Mojica concedeu uma coletiva à imprensa na tarde de ontem no Alameda Quality Center. O cineasta esteve em Bauru para coordenar um workshop e participar de um projeto com os alunos da Oficina de Horror, do ator Roberto Malini.

Aos 71 anos e com apenas uma das gigantescas unhas que o transformaram em ícone trash/cult do Brasil, Mojica começou a entrevista em tom de provocação: “Podem começar... Perguntas inteligentes, terão respostas inteligentes perguntas imbecis, respostas imbecis”. Apesar do rosto sério e sem sorrisos, a imagem de carrasco não se manteve durante as respostas longas, permeadas por histórias e toques de humor ácido.

Divulgação

Mojica avisou que algumas cenas do longa seriam exibidas ontem e hoje antes das sessões dos filmes em cartaz no complexo. “O trailer não dá para mostrar porque é muito forte”, disse o autoproclamado sensacionalista. A previsão é que o longa seja lançado no dia 13 de março de 2008, quase uma sexta-feira 13 e data de aniversário do cineasta.

Acostumado a equipes pequenas, de no máximo 15 técnicos, e a um orçamento menor ainda, para “A Encarnação...”, Mojica contou com cerca de 70 auxiliares e uma verba estimada em R$ 3,8 milhões. Desta vez, o governo brasileiro, tão criticado pelo cineasta durante a entrevista, foi bastante generoso com o horror.

Só do Estado de São Paulo, a produção recebeu R$ 500 mil; do governo federal mais R$ 1 milhão, que aplicados renderam R$ 2,5 milhões. Com a produção de Paulo Sacramento (“Amarelo Manga”) em parceria com a Gullane Filmes, foram captados mais R$ 800 mil e a Fox Filmes entrou com mais R$ 500 mil para a distribuição mundial.

“Nunca tinha trabalhado com verba do governo, porque há um preconceito com o gênero do terror. Fora que 80% das verbas vai para a panela carioca, para os ‘Barretão’; os outros 10% vai para São Paulo e o restante é dividido em 25 Estado brasileiros”, calculou Mojica.

O cineasta espera um número superior a 150 cópias para a divulgação do longa em todo o Brasil. “Em princípio, pretendemos exibi-lo em cinemas de cidades com mais de 250 mil habitantes. Como Bauru tem mais do que isso, acredito que o filme venha para cá”, disse o cineasta.

Apenas no Exterior, onde seus filmes chegaram assumidamente pirateados, Coffin Joe – como é conhecido por lá – tem 26 viagem marcadas para divulgar o longa em 2008. “Meu maior público está nos Estados Unidos. Enquanto no Brasil levei 50 anos para ter 50 capas de revistas, lá conquistei este número em um mês”, contou Mojica.

Tecnologia

Sempre em busca de novidades, desta vez, José Mojica Marins se comparou a Steven Spielberg quando esse inseriu imagens coloridas no preto e branco de “A Lista de Schindler”. “Nesta fita vai ser ao contrário. Em uma cena você vai ver o filme colorido e todos os espectros, as pessoas mortas por Zé do Caixão, em preto e branco”, adiantou o cineasta.

Os 40 dias de filmagens, que terminaram em dezembro de 2006, contaram com as participações do diretor de teatro Zé Celso no papel do anticristo, Luís Melo e o amigo Jece Valadão, que morreu sem gravar o último take do filme. Helena Inês, que já foi considerada uma das mulheres mais bonitas do Brasil no passado, interpreta uma bruxa no longa.

Avesso às modernidades cinematográficas, todo o filme foi rodado em película 35 milímetros. “Com tudo isso que inventaram, eles ainda não conseguiram fazer o que a película consegue”, comparou Mojica, que até o terceiro dia de filmagens estava assustado. “Senti que os técnicos perguntavam: será que ele vai conseguir?”, lembrou o diretor.

No terceiro dia, quando notou que os técnicos iriam entrar com toda a parafernália eletrônica, Mojica “deu as caras”. “Não tem quase nada de efeitos especiais no filme. É um filme muito realista e forte”, enfatizou o cineasta.

Mojica narrou uma cena do filme para comprovar o quão impressionante será a produção. “Tem uma cena que ficamos só eu e a atriz (Leny Arc), até os técnicos ficaram longe. Ela foi jogada no meio de 3 mil baratas. Foi difícil fazer porque ela morria de medo”, contou.

Quanto à morte definitiva de Zé do Caixão, Mojica fez suspense. Duas vezes morto e duas vezes de volta à vida, o cineasta, no fim, entregou: “Não é o fim do Zé do Caixão porque a luta dele é para ter uma mulher superior”, colocou o cineasta. Mas talvez a justificativa melhor para uma possível volta do coveiro esteja no bolso. “Tem quatro produtoras interessadas em gravar uma seqüência e com ofertas maiores do que a desse filme”, colocou.

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Oficina de Horror

José Mojica Marins parabenizou a iniciativa do ator Roberto Malini em coordenar uma Oficina de Horror em Bauru, a segunda do gênero no País do conhecimento do cineasta. Segundo Mojica, o brasileiro perde um grande filão ao não investir no horror, já que “tudo que é estranho está aqui”, colocou.

Hoje, Mojica participará do projeto “Sala de Horror”, que marca o encerramento das atividades da oficina. O evento será realizado, às 20h, no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves (avenida Nações Unidas, 8-9). Ingressos por R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia-entrada). Mais informações: (14) 3235-1072.

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