Bairros

Aposentada, auxiliar de enfermagem ensina artesanato em hospital

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 3 min

A regra é aposentadoria ser período de descanso. Mas quando desenvolver uma atividade periódica é prazerosa, ao invés de trabalho, ela pode se tornar lazer. Para a auxiliar de enfermagem aposentada do Instituto Lauro de Souza Lima, Irene Rodrigues, 57 anos, a vida é assim. Mesmo já aposentada, o que lhe dá satisfação é acordar cedo todas as quintas-feiras, pegar dois ônibus, sair da Vila Nova Esperança, onde mora, e ir até o Lauro de Souza Lima para ensinar artesanato aos pacientes.

A rotina já dura quase dois anos. Durante esse tempo, Irene só não pôde comparecer ao compromisso “sagrado” por um motivo relevante: uma intensa chuva a impediu de sair de casa. “Faço isso porque realmente tenho amor por esses pacientes, (com os quais ela conviveu durante oito anos) mas também porque faz muito bem ao psicológico, me mantém ocupada e ativa”, explica.

A atividade com os hansenianos começou ainda quando ela trabalhava no hospital. No entanto, como sabia apenas fazer crochê, a auxiliar de enfermagem teve que se virar para aprender técnicas de artesanato e repassá-las aos internos. “A instituição me deu total apoio, então comprava livros, revistas e fazia alguns cursos para aprender”, conta.

O projeto cativou todos os 16 internos da ala de geriatria e deu tão certo que hoje já não precisa mais de auxílio financeiro para ser desenvolvido. As pulseiras, caixinhas para objetos, canecas e bonecas, só para citar alguns itens, feitos pelos internos são expostas para pacientes e visitantes do instituto e viram receita para manter a “fábrica” aberta. “Já expomos nossos trabalho na feira Ubá (realizada nos finais de semana no Parque Vitória Régia) em três oportunidades”, conta orgulhosa.

Enquanto Irene concedia entrevista, Florisvaldo Alves da Silveira, 73 anos, interno do Instituto Lauro de Souza Lima há mais de 40 anos, chamava a atenção da reportagem ao apontar para uma peça, uma pequena vasilha de cerâmica com pinturas coloridas. Além de hanseníase, ele tem problemas mentais que o impedem de falar, mas não de reconhecer seu trabalho. Irene explica que aquele item havia sido fabricado por Florisvaldo há poucos dias. Uma terapia para ele, que não possui familiares e simplesmente “apareceu” no hospital para passar o resto da vida.

A força de vontade e o capricho dos pacientes na confecção dos produtos impressionam. A maioria deles está na fase avançada da doença. Por conta disso, as extremidades do corpo, principalmente os dedos das mãos, estão degenerados. Mas nada que os impeça ou os desanime de continuarem fazendo os trabalhos de artesanato.

Alício Higino Ambrósio, 51 anos, é considerado o mais talentoso do grupo de artesanato. A criatividade do homem tímido, avesso a entrevistas, chama a atenção. Ele fabrica bonecas e pulseiras com habilidade de dar inveja a qualquer um. No entanto, ele faz todo esse trabalho com peças pequenas, mesmo sem possuir mais dedos nas mãos.

Os colegas revelam que ele desenvolveu uma habilidade impressionante de manusear os objetos pequenos com a própria boca. O principal objeto produzido por ele são bonecas de fios de lã trançados uma a um. O mais impressionante é maneira como ele começou a fazer o trabalho. “Aprendi tudo sozinho e faço de cabeça”, afirma.

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Sino para igreja

A antiga igreja do Instituto Lauro de Souza Lima, em funcionamento há 74 anos, está sendo restaurada. Na fase inicial do trabalho, o velho relógio da torre foi totalmente recuperado, após 46 anos sem funcionar. A próxima meta é devolver à construção outro item importante: seu sino.

De acordo com Jaime Prado, responsável pelo trabalho de resgate histórico do instituto, os dois sinos da igreja foram roubados há 38 anos. Desde então, nunca houve verba ou interesse na compra de pelo menos um substituto.

Prado afirma ter entrado em contato com várias empresas da cidade, sem que nenhuma se interessasse em disponibilizar os R$ 2 mil necessários para a aquisição da nova peça.

“É desanimador constatar que a população dá pouca importância para algo que faz parte da história da cidade”, lamenta. Os interessados em colaborar podem entrar em contato pelo telefone 3103-5900.

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