Articulistas

Pisando no acelerador


| Tempo de leitura: 3 min

Pode não ser ainda o “tremendo desenvolvimento” de que falou o presidente mundial da Renault, o brasileiro Carlos Ghosn , em entrevista na abertura do Salão do Automóvel na Alemanha esta semana, mas não há dúvida que a confirmação dos índices mais robustos de crescimento da economia justifica, numa boa medida, o seu entusiasmo como empresário. Ele é uma das vozes de maior prestígio e influência no setor da indústria automotiva.

Os dados divulgados esta semana pelo IBGE mostram um crescimento acumulado de 4.8% do PIB nos quatro trimestres terminados em junho de 2007 em relação aos quatro trimestres imediatamente anteriores. No segundo trimestre deste ano o PIB cresceu 5,4% em comparação ao igual período do ano passado. O semestre completo de 2007 fechou com um crescimento de 4,9% acima do seu homólogo em 2006. Há uma aceleração lenta, mas constante, da economia, a partir do medíocre resultado (3.7% de crescimento) do ano passado. . Vamos chegar ao final de 2007 com uma taxa anualizada superior a 5% .

A aceleração neste segundo trimestre foi puxada pela indústria que apresentou o seu melhor desempenho desde 2004: cresceu 6.8% em relação ao período abril/junho de 2006, mais significativamente no setor automotivo e nos segmentos de máquinas e equipamentos, metalurgia, material elétrico e produtos químicos.

O IBGE ressalta que o outro fator, o aumento do consumo das famílias, vem se sustentando nos 15 últimos levantamentos graças ao crescimento da massa do salário real, ao maior acesso ao crédito e à queda das taxas de juros. Isso também se reflete nos segmentos da indústria da construção civil e na produção e distribuição de energia.

O desempenho mais fraco da agropecuária no segundo trimestre não chega a prejudicar a estimativa de uma safra recorde de 133.8 milhões de toneladas de grãos em 2007, um volume quase 15% superior ao que foi colhido na safra passada. Apesar de um ligeiro arrefecimento nos preços externos, a renda agrícola vai ser maior este ano, reforçando a expectativa do crescimento do PIB acima de 5% em 2.007.

Na entrevista concedida em Frankfurt à competente repórter Marli Olmos, do Valor Econômico (12.09.2007), Carlos Ghosn explicou porque as montadoras continuam apostando nas fábricas brasileiras: “a valorização do real tirou o Brasil do mapa das regiões de baixo custo (Turquia e Romênia, p.ex.) na produção de veículos” – disse ele – mas isso é compensado com a qualidade da nossa força de trabalho e o aumento da produtividade. “Há um tremendo desenvolvimento hoje no Brasil e foi essa capacidade de desenvolvimento que levou a uma mudança de valor da moeda e dos recursos. O país está no curso de seu total potencial” – avalizou. o executivo - apontando “a força da produção de ferro e aço, insumos altamente valorizados e a capacidade brasileira na produção de commodities que se encaixam bem com o que o mundo precisa hoje”

É com essa visão e espírito pragmático que o setor privado faz o desenvolvimento, acelerando os investimentos, acreditando que a demanda vai aumentar e ignorando a crença tacanha de economistas que se dedicam a inventar falsas restrições ao crescimento, como a idéia que “a poupança é insuficiente” ou o blá-blá-blá que “o PIB potencial não permite crescimento acima de 3,5% sem causar inflação...”

O autor, Antonio Delfim Netto, é Professor emérito da FEA-USP , ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

Comentários

Comentários