Cultura

‘Um ciclo foi terminado’, garante Morelli

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Nascidos no curta “Palace II”, que Fernando Meirelles e Kátia Lund fizeram durante os preparativos para rodarem “Cidade de Deus”, os carismáticos personagens Acerola e Laranjinha, vividos respectivamente por Douglas Silva e Darlan Cunha, não devem mais aparecer em outros projetos para o cinema ou a televisão.

Quem garante é Paulo Morelli, 51 anos, diretor do longa “Cidade dos Homens”, em exibição em Bauru, que ontem concedeu uma entrevista coletiva no Alameda Quality Center. Segundo Morelli, falando de amizade e paternidade, o longa filme foi planejado com o objetivo de fechar o ciclo da “Família Cidade de Deus”. Leia a seguir os melhores trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como é encerrar um projeto tão longo e de tanto sucesso?

Paulo Morelli - Foi um super-responsabilidade, um pouco assustador porque vem de “Cidade de Deus”, esse sucesso mundial, que criou um paradigma novo para o cinema brasileiro. Foi o primeiro desafio que eu tive, não fazer o “Cidade de Deus” parte 2. Eu não queria que parecesse com o filme. No “Cidade de Deus” você tem a história dos traficantes, sobre como é a formação do tráfico. “Cidade dos Homens” é um filme sobre os moradores da favela, sobre relações humanas, sobre amizade e paternidade. Havia uma sombra, um medo, um desafio, mas acho que o filme ficou diferente. Eu fiquei satisfeito com o resultado.

JC - O filme é resultado do sucesso da série na televisão? A série inova ao focar a vida nos morros cariocas, que nunca aparecem nas novelas. Esse sucesso foi surpreendente?

Morelli - O filme veio por causa do sucesso da série. Foi surpreendente no começo. No próprio “Palace II” havia uma temperatura quente para esse assunto na TV. Daí veio “Cidade de Deus” e fez um sucesso incrível. Acho que havia a necessidade das pessoas de ouvirem falar e verem esse pedaço do Brasil que nunca é mostrado. Isso se confirmou na série. Depois de dois anos de sucesso, a Globo pediu mais e daí começamos a desenhar um projeto que previa mais dois anos de série e o longa para terminar. Por isso foi plantado no terceiro ano da série o tema paternidade, para depois podermos fazer o filme sobre isso.

JC - Como é para um paulista fazer um filme sobre a vida nos morros?

Morelli - Eu cheguei muito aberto no Rio. Nunca tinha entrado em uma favela. Comecei a freqüentar as favelas e conversar com dezenas e dezenas de pessoas para tentar entender aquele universo. Eu estava despido de preconceitos, então recebi tudo, era uma esponja. Acho que foi interessante porque pude ser fiel aos relatos que ouvi e tentar retratar a vida daquelas pessoas a partir do que eu ouvi. O processo foi sempre muito integrado. As histórias nasceram dos relatos que eu ouvi, os atores são do morro, as locações são na favela, não existe cenário, maquiagem... É extramente fiel, tudo fica muito verdadeiro. Tem uma pegada meio jornalística, meio documental. Talvez o segredo seja ser feito por um paulista. Vários, aliás. O Fernando (Meirelles) também é paulista e fez o começo de tudo e os outros dez ou 11 diretores da série também são, a maioria, de São Paulo.

JC - Depois de tantos anos juntos, o Douglas e o Darlan devem ter um entrosamento absurdo. Eles incorporam os personagens com facilidade?

Morelli - O entrosamento deles é enorme, eles incorporam mesmo, mas eles quase são como os personagens. O tema da paternidade foi delicado porque eles mesmos não conhecem os pais. Um viu o pai uma vez quando era pequeno e o outro nunca viu, não sabe nem o nome. Para eles foi superdifícil emocionalmente fazer algumas cenas, mas eles se dispuseram a entrar nessa.

JC - Você tem um gênero preferido?

Morelli - Não, fiz três filmes, cada um de um gênero. Antes de “Cidade dos Homens” fiz “Viva Voz”, que era uma comédia urbana. O meu primeiro filme ninguém viu. Se chama “O Preço da Paz”. Eu filmei no Paraná em 1999. O filme só ficou pronto em 2003, mas no final o produtor faliu e o filme não foi lançado direito. É bem a história do cinema brasileiro. Era um filme de época que se passa no século 19, uma história real de um barão muito rico do Paraná que foi morto em uma traição. Tem um grande elenco: Lima Duarte, Giulia Gam, Herson Capri.

JC - Que cineastas ou cinematografias influenciaram seu trabalho?

Morelli - Tem muita gente. Da minha formação, o cinema russo de Eisenstein e o cinema russo dos anos 70, principalmente Tarkovsky. O cinema italiano também, Felini, Antonioni, Scola, Pasolini. Quando eu era mais jovem o cinema italiano sempre tinha um filme de um destes caras se destacando então foi muito forte pra mim. No cinema americano tem o John Ford, Orson Welles, Billy Wilder... Mais recentemente, Scorsese, Woody Allen, Coppola, Paul Thomas Anderson, Stephen Frears, Ken Loach...

JC - Qual o seu filme favorito?

Morelli - Não sei. Talvez o filme que mais tenha me marcado seja “Stalker”, do Tarkovsky. É um filme muito esquisito, que mostra as pessoas pelas costas. Não sei se é meu filme favorito, nunca tinha pensado sobre isso.

Comentários

Comentários