“Quem trouxe a fome foi a geladeira”. Fiquei impressionado com essa explicação de Carlinhos Brown a Frei Beto durante a visita que este lhe fez em Salvador, com o propósito de conhecer o projeto que o cantor mantém em um bairro periférico. O raciocínio de Carlinhos Brown é simples e cartesiano: antes da geladeira, a fome não passava nem por perto da pobreza. Sempre havia algo no que a minha mãe chamava de guarda-comida: feijão, arroz, frutas da estação, bolo de fubá. O melaço de cana, para comer com farinha de mandioca, tornava a vida mais doce.
Foi a geladeira que deixou os hábitos da casa mais frios. A dona de casa parece que sente vergonha de ver o refrigerador vazio. Compra tudo o que está em oferta nos supermercados, mesmo que sejam supérfluos destinados ao lixo, depois de alguns dias. Nem é possível comer tanto. Na sala o comercial de TV dita as regras sobre as preferências da família. No outdoor da esquina está escrito o que se deve comer, a bebida que se deve tomar, a paisagem que se deve percorrer, a mulher com a qual será melhor sonhar.
O homem primitivo ia à caça por instinto de sobrevivência. A vida não ia além da precisão do dia. E as coisas aconteciam mais por acaso do que por premeditação. Depois que trocou o acaso pela necessidade, a razão humana aprendeu a desejar mais do que a vista lhe permite alcançar. E para não esquecer nada, mandou escrever tudo em grandes cartazes de rua e em anúncios de televisão. Hoje estamos reduzidos a uma manada que come com os olhos e rumina com a pança da frivolidade. Desfez-se a mesa dos nossos pais, dos nossos avós. A sala de jantar nunca mais viu estendida a toalha simples, mas sempre limpa. A bem da verdade, a sala de jantar nem existe mais... Come-se com o prato em cima dos joelhos, vendo televisão. Ou enquanto se joga videogame. Ou ao mesmo tempo em que mensagens são mandadas pela internet. O individualismo é um prato frio que não alimenta a alma...
O velho McLuhan procurou avaliar como as técnicas dominantes de comunicação afetam e acabam modelando o aparato perceptivo, sensorial, psicológico e cultural de toda uma sociedade. “Os homens, dizia ele, criam as ferramentas, e as ferramentas, por sua vez, recriam os homens”. Os recursos pelos quais se difundem sons, imagens e palavras são mais relevantes do que elas próprias. Daí porque “o meio é a mensagem”. Seu apelo era para que os agentes sociais se apropriassem das novas tecnologias, em vez de serem tragados por ela. McLuhan morreu em 1980, antes de poder contemplar o impacto das novas tecnologias, intimamente afinado com os seus prognósticos. Trinta e sete anos depois ainda há uma enorme relutância em lidar com as suas idéias. Como ele dizia comentando a relutância dos seus contemporâneos ao seu pensamento: “Nós olhamos o presente pelo espelho retrovisor. Adentramos o futuro marchando para trás”.
Nos tempos da mesa posta havia sempre um lugar para mais um. Ninguém se atrevia a jogar nada fora. Na mesa tudo era sagrado, a começar pelo pão. As refeições e as afeições tinham cara de pai e mãe. Isto é olhar o passado com o olho no presente, para que o futuro seja um avanço. O “comunicar”, que hoje se faz mediante uma parafernália microeletrônica, vem de “comungar” (communicare), desde o latim. Sou desse tempo em que se comia à mesa com a fome solene de quem busca a comunhão.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC