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Entrevista da semana: Domício: ‘Não gosto de ficar parado’

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

A sala já estava lotada de recortes, fotos, espadas, sabres e floretes quando o coronel reformado Domício Silveira entrou com um livro sobre folclore brasileiro que acabara de trazer da aula na Universidade do Sagrado Coração (USC), onde é aluno da terceira idade. “Olha que maravilha”, disse. “Tem cada coisa bonita aí”, completou, voltando para a entrevista.

O seu entusiasmo ao mostrar o livro atesta o quanto aprender ainda é importante em sua vida. Aos 87 anos, o coronel mantém a mente e o corpo ocupados o tempo todo, seja declamando uma poesia, tocando violino ou praticando esgrima no Bosque da Comunidade. Seus movimentos rápidos com as armas impressionam.

Militar, mestre de armas desde 1948, Silveira gosta de dizer que teve três vidas: a militar, a acadêmica, como diretor da Instituição Toledo de Ensino (ITE), e a política, como chefe de gabinete do prefeito Luis Edmundo Coube, na década de 70. É uma daquelas pessoas que poderiam dizer “minha vida dá um livro”. E com sua memória prodigiosa, seria um livro com muitas páginas e referências. A seguir, ele conta algumas de suas histórias.

Jornal da Cidade - O que levou o senhor a ingressar na Força Pública?

Domício Silveira - Saí de Santa Adélia para estudar em São Paulo e integrar a Força Pública. Antes tinha estudado em Catanduva. Em São Paulo estudei três anos e saí de lá como 2º tenente, em 1943. Naquela época a realidade da polícia era outra. Para se ter uma idéia, a Aeronáutica do Brasil nasceu em 1941, mas desde 1910 a Força Pública tinha um esquadrão aéreo que só acabou depois da Revolução de 1932, quando perderam o Campo de Marte.

JC - Quando o senhor veio para Bauru?

Silveira - Vim para Bauru em 1949. Não conhecia a cidade, mas tinha horror a São Paulo porque Santa Adélia era pequena. Antes de chegar aqui fui auxiliar do coronel Pedro Dias de Campos, o homem que introduziu a esgrima e o escotismo no Estado de São Paulo e foi comandante geral da Força Pública de 1924 a 1928. Ele perseguiu a Coluna Prestes em São Paulo. Em Bauru fui para o 4º Batalhão de Caçadores, como 1º tenente. Eu comandava a 1ª companhia, que ia de Fernão Dias até Panorama. Aqui comandei desfiles, criei uma prova de tiro ao alvo que teve a participação de nomes da imprensa... Trabalhei também em Araraquara e Marília. Servi no 4º Batalhão até o posto de major, depois fui promovido a tenente, coronel e fui para o 9º Batalhão, em São Paulo, onde fiquei até passar para a reserva, em 1965. Daí voltei para a Bauru.

JC - O senhor tem uma longa história com a ITE...

Silveira - Eu faço parte da primeira turma de direito da ITE. Comecei em 1953 e terminei em 1957. Comecei tenente e saí capitão. Na época dava aula na escola de educação física, que tinha sido aberta um ano antes. Como seguia militar, eu podia advogar, mas com restrição ao direito penal. Quando eu saí da ativa na Força Pública já estavam me esperando na ITE. Eu era diretor administrativo de toda a instituição. Saí de lá em 1973 para cuidar da minha esposa que estava doente. Não fosse isso não tinha saído. Hoje ainda sou curador nato da instituição. O reitor determinou no testamento.

JC - O senhor participou do projeto Rondon?

Silveira - Era o representante da ITE desde 1967. Participavam faculdades da região de Botucatu, Jaú e Avaré. Bauru era a sede. Em 1972 fui eleito coordenador do Grupo de Tarefa Universitário, cujo câmpus avançado ficava na cidade de Humaitá, no sul do Amazonas, na beira do rio Madeira.

JC - E como foi sua passagem pela política?

Silveira - Em 1974 o prefeito Luis Edmundo Coube, que era meu vizinho, me convidou para ser chefe de gabinete. Eu disse: “não gosto muito de político”. Ele respondeu: “nem eu”. Ele era um homem extraordinário, modesto, bem humorado. Lembro quando ele foi inaugurar um trecho da Nações Unidas e eu descerrei a placa junto com a mãe e a esposa dele. Ele não gostava dessas coisas. Naquele dia ele ainda disse: “Vamos inaugurar a obra do Jurandyr (Bueno)”, que era o vice-prefeito, como se ele mesmo não tivesse feito nada. Muito humilde, um grande líder. Na prefeitura eu trouxe todos os costumes do quartel para lá.

JC - O senhor conhece Bauru desde a década de 40. Como o senhor acha que a cidade está hoje?

Silveira - A cidade está melhor. Onde eu moro hoje é centro da cidade, antes era a extremidade da cidade. Quando mudei, a Duque era areia e tinha uma caixa d’água no meio. Ninguém passava lá. Do outro lado da Duque tinha até um matinho. Dava para caçar lá. Acho que a cidade se desenvolveu muito por causa dos estudantes porque hoje Bauru é um grande centro estudantil. O Centrinho, por exemplo, é uma maravilha, recebe gente de todo Brasil.

JC - Como o senhor se tornou esgrimista?

Silveira - Para aprender esgrima era preciso ser professor de educação física, então, fiz o curso em 1947 e depois, em 1948 fiz o curso de mestre de armas, que é como uma especialização. Aprendi esgrima no curso e tive aulas com dois militares que tinham aprendido com sargentos franceses. Hoje em dia ainda pratico com amigos para me exercitar. Mantenho a forma.

JC - É um esporte raro no Brasil.

Silveira- É tudo feito fora, na Europa, não tem quem pague. As pessoas confundem sabre, espada e florete, acham que é tudo a mesma coisa, mas cada um tem uma característica e um alvo diferente. O punho, o copo e a lâmina das três são diferentes. Os movimentos também não são iguais. O alvo da espada vai do pé até a cabeça, por exemplo. Já com o florete não valem os toques nos braços.

JC - Como aprendeu a tocar violino?

Silveira - Toco desde os 10 anos porque meu pai queria que todos os filhos tocassem algum instrumento. Fazia parte da educação naquela época. Um filho tocava flauta, outro, clarinete, outro violino... a moça tocava piano, sempre. Toda segunda-feira eu toco violino com um amigo que vem aqui. Toco um violino que o meu pai comprou da esposa de um médico que veio da Bahia. É uma cópia de um Stradivarius de 1721. A mulher que vendeu dizia que o violino tinha tocado durante um século no Teatro Municipal de Salvador. O meu pai era um homem simples, agente do Correio, e queria que eu aprendesse as coisas.

JC - O senhor também viajou bastante. Quantos países conheceu?

Silveira - Não sei, viajei muito. Conheço os Estados Unidos, Canadá, México, Argentina, Alemanha, todo o leste europeu, a Rússia, a Escandinávia, África do Sul... Muitos outros. Também fui no Alasca e no Havaí. A Rússia eu conheci na época do comunismo ainda, na época do Gorbachev. Eu tinha muita curiosidade em saber como era um país comunista porque durante toda minha vida militar ouvi dizer que o comunismo era o nosso inimigo. Vi que tinha muita corrupção, mas o povo era muito amável. Fui para ver os pontos positivos. A medicina deles também era muito avançada.

JC - Qual o lugar mais bonito que conheceu?

Silveira - Jerusalém é belíssima. Ficamos, eu e minha senhora, olhando as pessoas colocando pedidos em papeizinhos no Muro das Lamentações. É uma cidade linda.

JC - O senhor foi trocando de atividade mas nunca parou. Sempre foi assim?

Silveira - Quando minha senhora faleceu, há cinco anos, fiquei meio assim... Ela tinha 80 anos e um mês. Daí entrei na Terceira Idade da USC para gastar o tempo. Sou o aluno mais velho de lá. Hoje (quinta-feira) mesmo tive aula sobre folclore. Sou um aluno que declama. Lá temos três poetisas que são muito competentes e eu que declamo. Tenho boa memória. Herdei do meu pai. Mas eu sempre quero aprender coisas novas, não gosto de ficar parado.

JC - O senhor gosta de Internet. Nem todas as pessoas da sua idade acompanham o desenvolvimento tecnológico com o passar do tempo, não é?

Silveira - O meu genro, por exemplo, é aposentado da odontologia, dava cursos de mestrado e doutorado para dentistas de toda América Latina e acha que está velho para mexer com o computador. Minha filha é quem mexe. Tenho um amigo chamado João Batista, que mora em Mato Grosso, que também diz isso, não se adapta às coisas novas, ao contrário de mim. Eu me adapto facilmente.

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Perfil

Nome completo: Domício Silveira

Local de nascimento: Santa Adélia (SP)

Idade: 87 anos

Esposa: Odette Pantaleão Silveira (falecida há cinco anos)

Filhos: Ilka Maria Pantaleão Silveira Bonachela (58 anos) e Marcos Pantaleão Silveira (57 anos)

Hobby: Computador, passo horas e horas trocando mensagens com amigos

Livro de cabeceira: Obras de Camões, “Poemas Completos” e “Os Lusíadas”

Filme preferido: Gosto de filmes de cowboy. Adoro os filmes do John Wayne

Estilo musical predileto: Música clássica. Ultimamente tenho ouvido muito Pavarotti

Times de coração: Não tenho um time, futebol pra mim tem sentido de Pátria. Quando joga a Seleção Brasileira eu vejo

Para quem daria nota 10: Gislaine Fantini, psicóloga e coordenadora da Universidade Aberta à Terceira Idade da USC

Para quem daria nota 0: O presidente Lula

E-mail: domiciosilveira@terra.com.br

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