Bairros

Periferia em verso e prosa

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

Dois livros e seis antologias publicadas deram a Luiz Antônio Barbosa da Silva uma cadeira na Academia Bauruense de Letras. Com este currículo é fácil imaginá-lo sentado em seu escritório, cercado de livros, preparando suas aulas na universidade enquanto sua secretária agenda a próxima palestra. Mas a realidade é diferente.

Silva não possui títulos de doutor, nem fica horas por dia no escritório, buscando inspiração para o próximo romance. A imagem mais correta do autor é entre tijolos, cimento e andaimes. O titular da cadeira número 15 da ABLetras é pedreiro, não tem sequer o ensino fundamental e sua inspiração vem do cotidiano, das obras e do bairro onde mora, o Parque Jaraguá.

Há 20 anos seguindo pelos caminhos da literatura e da poesia, Luiz Antônio não tem vergonha da origem humilde nem da profissão que exerce. Pelo contrário, a vida na periferia e o fato de ser pedreiro e autodidata só ajudam a enaltecer ainda mais a paixão deste homem pelos livros.

“A pessoa quando escreve é movida por um impulso incontrolável de se abrir para o mundo, de revelar alguma coisa de si mesmo.” Desta forma o pedreiro-escritor, ou escritor-pedreiro, revela porque enveredou pelo caminho das letras. Antes de começar a escrever, Silva percebeu que havia uma lacuna em sua vida e que precisava fazer alguma coisa ligada à arte, para preencher este espaço. “Escrever poesia foi o caminho mais fácil”, diz.

Nem só de poesia vive o escritor. Além de contos, ele se aventura pelo romance e até por biografias romanceadas. O autor explica que, por viver na periferia e encarar a dura realidade do trabalho braçal, não lhe falta inspiração. “As dificuldades que a gente enfrenta no dia-a-dia acabam virando matéria”, afirma.

Para ele, o cotidiano, o mundo que o cerca, as pessoas com quem convive ajudam a dar uma visão mais ampla de tudo. Nada disso passa em branco, pois é aproveitado por Silva em seus textos ou poesias. E não importa se são coisas boas ou ruins, porque, segundo ele, o sofrimento se torna fonte de identificação do poeta com os outros seres humanos. “Tudo que por algum motivo marca a vida da gente,se transformando em fonte de inspiração”, conta.

Mas o fato de ser escritor, autodidata e de enfrentar horas de trabalho duro não significam fama e benefícios para Luiz Antônio. O próprio autor afirma que são poucos os vizinhos que reconhecem e admiram o trabalho. A maioria das pessoas é indiferente, porque, de acordo com ele, o mundo em que vivemos é consumista e materialista. “As pessoas se importam mais com aquilo que você tem do que com aquilo que você é e do que você é capaz”, relata.

Se espelhando em nomes como Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Cora Coralina, Adélia Prado, Lia Luft, entre outros, Silva prepara o próximo livro, que segundo ele ‘está prontinho’, mas ainda falta o essencial: patrocínio.

Despertar talentos como Luiz Antônio é uma das metas da ABLetras e da União Brasileira de Trovadores (UBT), além de inúmeras escolas municipais e estaduais, que recorrem a atividades coletivas, como palestras, debates, oficinas e hora do conto, para também motivar o interesse pela literatura e, assim, abrir um novo mundo entre aqueles que, geralmente, estão envoltos em uma vida com vários tipos de privações.

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Deus, Dumont e Pontes

Deus, em sua infinita sabedoria

Sabia que carecíamos desesperadamente de heróis

E apesar do complexo viário inacabado

Elevou Pontes sobre o rio Bauru

Sobre o imenso abismo azul

Entre estrelas e constelações inacessíveis

Dumont, deu asas aos sonhos

Marcos, é um marco no tempo e no espaço

Marcos, é a ponte que transporta

Meros urbenautas itinerantes

Pela via interplanetária

Juncada de flores cósmicas

Nossos olhos agora passeiam

Pelo imenso jardim galático

Durante o sono reparador

À luz diáfana do despertar

No efeito estufa de cada manhã

Sobressai como uma sobremesa

As delícias deste vôo brasileiro

O primeiro da série...

E através desta jornada insólita

Acolhemos os novos membros

De nossa família espacial

Yuri, Neil, Edwin, Michael

Vinogradov e Williams

Sejam bem-vindos!

Luiz Barbosa

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