Bairros

Escola estimula primeiro passo para literatura

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 5 min

“Era uma vez...”. Vestida de Cinderela, a pequena Raíssa, de 4 anos, começa a contar a história que ouviu no dia anterior. Ao seu lado, o príncipe e perto deles a turma do Sítio do Picapau Amarelo, o Soldadinho de Chumbo e a Bailarina, Branca de Neve e os sete anões. Teatro? Não, literatura. Coordenados pela professora Luciana Sojo Nascimento, a turminha se produziu e foi contar história.

Os pequenos alunos da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Maria Elisabeth Camilo de Pádua, no Núcleo Índia Vanuire, aprendem desde cedo a importância dos livros e, aparentemente, adoram esse contato com um mundo completamente diferente, cheio de fantasias e com finais felizes.

Para isso, a Emei montou, há 11 anos, uma pequena biblioteca, com livros infantis que são usados pelas professoras para atividades em sala de aula, ou no pátio, como a turma de Raíssa. Segundo a diretora da Emei, Tereza Lopes Ricci, a instalação da biblioteca tem como objetivo desenvolver o gosto pela leitura e o conhecimento da literatura infantil.

Engana-se, no entanto, quem pensa que as atividades se restrinjam ao lado de dentro dos portões da escola. A parte fundamental do projeto é envolver toda a família no aprendizado, fazendo com que pais e irmãos também façam parte deste novo mundo, lendo as histórias para os filhos. “A participação da família é fundamental”, afirma a diretora.

Ela também conta que a participação familiar não se resume à leitura para os pequenos estudantes, mas também à organização da biblioteca, instalada na sala dos professores. Afinal são as mães que tomam conta dos livros, distribuem, recolhem, fazem a contagem dos volumes, tudo voluntariamente. “A biblioteca só existe porque os pais colaboram”, destaca.

Os alunos da Emei têm idade entre 3 e 6 anos, aí vem a dúvida: como eles lêem? A diretora explica: as crianças lêem as imagens. Apesar de nem todos conhecerem a escrita, as imagens nos livros também transmitem mensagens, que são absorvidas pelos pequenos. Na prática, enquanto a professora ou os pais lêem a história, a criança fica atenta às figuras, sendo capaz de contar, ainda que do seu jeito, do que se trata o livro.

Assim aconteceu com pequeno Jonatas, o Soldadinho de Chumbo, que não resistiu à presença da equipe do JC e quis contar sua história, já que a tímida Raíssa já tinha terminado a sua. O começo foi promissor: “Era uma vez, um soldadinho de chumbo que não queria ser soldado”. A partir daí, o garoto deu asas à imaginação e conseguiu contar as aventuras do soldado de uma perna só, que se apaixonou pela bailarina porque pensou que ela também só tinha uma perna.

Mas essa parte da história não teve muita importância para Jonatas. O importante mesmo foram as participações especiais da Branca de Neve e do Lobo Mau, que inovaram o jeito de contar a saga do Soldadinho de Chumbo. A idéia é justamente essa, despertar a criatividade das crianças através do contato com livros, que certamente não chegariam até eles se não fosse a biblioteca da escola.

Formiguinha

Quem vê crianças de 4 anos tão desenvoltas na literatura, mesmo sem saber ler, deve pensar qual o segredo para essa participação ativa. Não é simplesmente entregar o livro nas mãos delas e esperar que dali saia um novo Monteiro Lobato. O trabalho de educação infantil exige paciência e compreensão, ou seja, os passos para chegar a pequenos contadores de história são passos de formiga, pequenos, mas com objetivo.

Como explica a diretora Tereza Ricci: “Até eles estarem habituados, conhecerem o valor desses livros, das histórias, é um trabalho constante. Aí você vê que, espontaneamente, eles cobram da escola, eles esperam pelo dia da retirada do livro”.

A maior prova que o projeto tem funcionado é o fato de as crianças deixarem de brincar para retirar os livros na biblioteca. Segundo Tereza, cada turma pega o livro em um dia da semana, devolvendo no dia seguinte. O horário de retirada dos livros é justamente a hora que as crianças estão no parque, no intervalo. Mesmo assim elas não se importam em deixar de lado as brincadeiras para pegar o livro que mais gostam.

Como o pequeno Alexander, de 6 anos, que foi o primeiro a entrar na biblioteca. De poucas palavras, ele foi folheando alguns títulos até encontrar um de sua preferência. Na hora de responder o que acha de poder levar um livro para casa, ele é simples e direto: “É bem legal”. Não precisa dizer mais nada.

Depois que Alexander deixa a biblioteca, entra a pequena Débora, cuja mãe, Sônia Hilário Boza, é voluntária na entrega e recolhimento dos exemplares. Mãe coruja, ela se enche de orgulho ao falar que a filha já copia as histórias do livro e que a brincadeira favorita é brincar de escolinha.

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Reconto

Mais gostoso ainda do que ouvir, é contar. Ou recontar, como é o caso da Emei Maria Elisabeth, no Núcleo Índia Vanuire. Uma das atividades programadas para as crianças é o “reconto”. A diretora Tereza Ricci diz que, ao retirar o livro, o aluno já sabe que no dia seguinte terá como atividade “recontar” a história que a mãe ou o pai leu para ele.

Pudemos observar a turma da professora Sara Regina Rossi Felipe realizar essa atividade. Enquanto os colegas ouviam atentamente, sentados, a pequena Júlia Sabino recontava a história de Pocahontas, mostrando as ilustrações do livro para os amiguinhos a cada trecho contado. Uma experiência excelente para descobrir novos talentos, que podem fazer a diferença no futuro.

Não pense o leitor que a atividade é encarada como obrigação. Os pequenos confirmam as palavras da diretora: a hora do livro é a melhor hora do dia. Se “um país se faz de homens e livros”, esse pequenos leitores já estão contribuindo para que o futuro do Brasil seja melhor.

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