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Produção globalizada, Internet democratizada


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Ricardo Neves, no seu livro “O Novo Mundo Digital”, relata com certa preocupação sobre a redução de empregos e a mobilidade empresarial de realocar fábricas em outros países em decorrência da Nova Era Digital Global, sucedânea da Era Pós-Industrial.

Manifesta o seu temor pelos futuros marginalizados nesta Nova Era: indivíduos das classes C, D e E, pela dificuldade de vencerem o fosso do acesso à Sociedade de Conhecimento, facilitada pelo uso da Internet.

Entretanto, é curioso notar a ocorrência localizada de um processo inverso ao temido pelo autor: humildes profissionais técnicos, soldadores, montadores de estruturas industriais, oriundos das classes acima, sem domínio prévio da Internet, que estão tendo maiores oportunidades de emprego neste mundo de produção globalizada, cujo familiaridade com a Internet se processa em um estágio posterior. Isto porque a formação técnica aliada à experiência prática, está em alta no mercado de trabalho, em detrimento aos formandos tradicionais como Direito, Filosofia, Pedagogia, etc.

É o caso de Netinho, 23 anos, técnico soldador, montador de estruturas industriais. Recebeu convite da sua empresa para trabalhar no Continente Africano. Pai e mãe, família humilde trabalhadora, ficaram apreensivos com o convite, afinal, tinham conhecimento desta migração apenas com brasileiros de Governador Valadares (MG) e, de repente, o caçula estava indo embora. Na partida, abraços e muitas emoções.

Aos poucos foram se acostumando, e no último dia dos pais na promoção de R$ 0,20 centavos o minuto, gastaram R$ 50,00 com o Netinho ao telefone. A emoção é grande! Palavras como saudade, amor, agora fazem parte da conversa, pois quando estavam juntos não sentiam a necessidade de se expressarem desta forma.

Três meses após, Netinho recebeu novo convite: trabalhar na China. Neste mundo globalizado, é necessário produzir mais com menos. Sua mãe ficou apavorada, temendo não ver mais o filho, não dispor de maior tempo ao telefone com ele.

Netinho, “global worker” abraçou a oportunidade. Procurou formas de facilitar as coisas e acabou descobrindo a Internet, acalmando sua mãe. Disse que conheceu um “Sistema”, no outro lado do mundo, que funciona com “web cam”, gratuito, inovador, diferente do telefone e que eles poderão se ver enquanto “conversam” e “sentir” pela expressão facial de ambos, que tudo estará bem. Poderão “falar” mais vezes, inclusive. Parece que a convenceu.

Percebe-se desta maneira, que milhares de “Netinhos”, técnicos profissionais estão abraçando estas oportunidades, integrando-se produtivamente nesta Nova Era Digital , marcada pelo consumo acelerado, produção globalizada e Internet democratizada, e consequentemente, afastando-se do temor da marginalização profissional e pessoal manifestada pelo autor.

O autor, José Aparecido Bordão Alves, é professor do CTI-Unesp - e-mail: jbordao@uol.com.br

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