Cultura

O som do profeta

Por Adriana Fricelli | Com Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Filho do holocausto e crescido no tropicalismo, o autoproclamado “poeta do kaos”, Jorge Mautner, traz nesta noite ao Serviço Social do Comércio (Sesc) o show do seu novo trabalho, “Revirão”. O disco, lançado cinco anos depois da estrondosa parceria com Caetano Veloso em “Eu Não Peço Desculpa”, segue na divulgação da diversidade cultural brasileira pela voz de seu grande personagem.

O show também é um agradecimento à cidade que o homenageou há mais de 40 anos, quando um garoto de 14 anos, chamado Mauro Rasi, montou o espetáculo “Caos com K”, em Bauru. “Eu conheci o Mauro Rasi em 63. Ele é uma pessoa muito importante para mim, então Bauru está sempre em meu coração”, disse o profeta.

O artista, acompanhado pelo músico Nelson Jacobina na guitarra e violão, vai apresentar músicas do novo disco, como “Os Pais”, “Executivo-Executor”, “Ao Som da Orquestra Imperial”, “Outros Viram” e o bolero “Estilhaços de Paixão”. Em pleno centenário do frevo, cantará ainda o frevo-marchinha “Juntei a Fome com a Vontade de Comer”, e os dois rocks: “Assim Já é Demais” e “Ressurreições”.

Em entrevista por telefone ao JC Cultura, ele falou sobre o novo disco e exaltou a amálgama brasileira, “que o próprio José Bonifácio de Andrada e Silva, num pronunciamento em 1823, já dizia que o que nos diferenciava dos outros países, era justamente esta amálgama, que é mais do que mistura, mais do que miscigenação, uma alquimia sempre se reinventando com a força da pororoca”, colocou Mautner.

O show e o novo disco têm muito a ver com o recém-lançado livro autobiográfico “O Filho do Holocausto” e também com o disco “Eu Não Peço Desculpa”, que recebeu dois Grammys em 2003. Pois no CD, Jorge Mautner já afirmava: “Ou mundo se brasilifica ou virará nazista!”. E neste “Revirão”, ele e Gil proclamam que “A humanidade vem renascer no Brasil”. A seguir os principais trechos da entrevista:

JC - O show que você trará a Bauru será praticamente de músicas do “Revirão”?

Jorge Mautner - É o “Revirão”, mas também outras músicas do disco “Eu Não Peço Desculpa”, como “Tudo Errado” e outros sucessos desde lá atrás. Tem também “Maracatu Atômico”, “Locomotiva”, que foi meu primeiro sucesso na voz de Wanderléia e “Orquídea Negra”, que foi sucesso com Zé Ramalho.

JC - Por que tanto tempo para um novo álbum?

Mautner - Demorou mesmo, né? Espero lançar o próximo no ano que vem. Foram muitas coisas. Estou visitando os Pontos de Cultura (projeto do Ministério da Cultura), preparando livro e, neste ínterim, fiz muitos shows do disco “Eu Não Peço Desculpa”. Neste tempo, eu fiquei muito amigo dos músicos da Orquestra Imperial e várias vezes fui convidado para participar como cantor da Orquestra.

JC - A mídia te cobra ou você mesmo se cobra a fazer sempre algo original?

Mautner - Cobrado, não, até elogiado sempre (risos). Inclusive “Revirão” teve uma crítica estupenda no “New York Times”. Foi muito bem-recebido. Cada artista tem seu universo e o meu, essas minhas músicas, são minha literatura cantada, que têm uma visão de mundo de proclamar a grande cultura brasileira e sua diversidade, a amálgama, o caos criativo. É uma visão pessoal e ao mesmo tempo universal e, principalmente, muito brasileira, que reflete este amálgama, que é o máximo de tolerância, de abertura e receptividade e absorção do outro. O mundo ficou muito intolerante, fechado, e nós somos o contrário. Este é o maior tesouro do Brasil e eu irradio isso nas músicas, nos discos, nas palestras, nos encontros.

JC - Então, para você, não ser original flui naturalmente?

Mautner - Eu acho que todo mundo é assim. A estranheza e a originalidade convivem com o cotidiano. Eu sou escritor-pensador e tudo reflete esse viés.

JC - Você, o poeta do “kaos”, continua otimista?

Mautner - Sempre fui muito otimista. E continuo assim, cada vez mais (risos).

JC - E o que visualiza para o Brasil?

Mautner - O Brasil é um País continente, tem esse amálgama que é essa nossa cultura de uma diversidade imensa e que é, inclusive, a vivência democrática no seu auge. Só não pode ser terrorista, nem nazista, o resto pode tudo. O Brasil é um continente quase inabitável, nós temos cerca de 200 milhões de habitantes, mas tem lugar para mais, se quiser. De todos os grandes países em emergência, nós temos as maiores possibilidades, muito por causa de não termos essa cultura compartimentada. Fora isso, aqui tem florestas, etanol, agropecuária, mas também tem comida e você tem terras do sem fim, uma imensidão. O Brasil é um eterno vir a ser. E, agora, então, não resta dúvida. Esta nova geração já tem conquistas, inclusive, pro lado da ciência. Vamos modificar o ser humano, vamos construir um ser humano sem doença, com longevidade indefinida e por aí vai.

JC - Essa é uma visão mais romanceada. Você não faz críticas?

Mautner - As críticas estão incluídas. O Brasil não tem distribuição de renda ainda, isso é injusto. Isso tudo vai ser feito pela democracia, pelas eleições, pelo plebiscito, enfim, pela vivência política. Eu falo, incluo, aliás, tenho páginas de livro escrevendo as miséria das classes oprimidas. Mas como poeta e profeta do “kaos”, eu sinto o lado positivo. Ao poeta cabe isso: levantar. No meu caso, eu canto a alma do Brasil, eu canto o coração do Brasil, que é mais forte que tudo. É mais forte que qualquer crítica, porque ele é a afirmação desse esplendor.

JC - Para compor o novo disco, o que você buscou em discos e livros?

Mautner - Neste disco tem carimbó, tem rock, tem baião, tem samba, tem bossa nova, tem homenagem à Orquestra Imperial, tem bolero, tem uma diversidade que reflete todas essas vivências pelo Brasil. Teria uma relação com o livro “O Filho do Holocausto” que foi o último livro que eu lancei. Eu nasci um mês depois que meus pais chegaram aqui refugiados do nazismo. Então, eu sempre tive essa consciência do lugar onde meus pais vieram e daqui, que era o contrário. Sempre tive muita felicidade no Brasil e a vida afora foi confirmando isso na música, na poesia, nos encontros com os artistas e com a garotada.

JC - Tem projetos para este ou para o outro ano?

Mautner - Vão sair dois livros novos. Um sobre os Pontos de Cultura que tenho visitado desde o início do ano passado e, provavelmente, vai ter uma peça minha com o Afroreggae, chamada “Urucubaca”, e músicas novas também. Talvez um disco no final do ano. Tem um programa de televisão semanal de terças e sábados no Canal Brasil, chamado “O Canto de Mautner”, que vai se ampliar no ano que vem. Continuo escrevendo um livro, que é uma espécie de continuação do “O Filho do Holocausto”, que é meu encontro com o Gil e o Caetano. Mas é tudo entremeado com tudo, entendeu?

____________________

Bate-papo

Hoje, às 15h, haverá um bate-papo aberto ao público com Jorge Mautner. Poeta, cartunista, violinista, pianista, compositor, artista plástico, cineasta e cantor é considerado intelectual atuante e de pensamentos profundos. Afirma que “O Brasil é um gigante que se fingiu de invisível até agora. Mas não dá mais. Ou o mundo brasilifica-se, ou virará nazista. Nós somos a chave para compreender o futuro”.

• Serviço

Jorge Mautner se apresenta hoje, às 21h, na área de convivência do Sesc (avenida Aureliano Cardia, 6-71). Ingressos por R$ 2,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes), R$ 4,00 (usuários inscritos, estudantes com comprovante, professores da rede pública e maiores de 60 anos) e R$ 8,00 (outros). Mais informações: (14) 3235-1751.

Comentários

Comentários