Domingo, 16 de setembro, meu carro estava quebrado e não tinha comida em casa, o que me levou a buscar a janta a pé. Até chegar no meu destino, tive a oportunidade de passar pelo Parque Vitória Régia, um dos mais afamados cartões postais de nossa cidade. Passo de carro por lá todos os dias, inclusive aos domingos, mas a pé era minha primeira experiência. Ao me aproximar do Vitória observei crianças de 12, 13 anos fumando, beijando e trocando carícias de maneira a incentivar o ato sexual.
De outro lado um grupo de jovens estava sentado em círculo, homens e mulheres conversando sobre algum assunto que não tive a oportunidade (e nem coragem) de perguntar, consumindo algum produto ilícito que pude reconhecer pelo cheiro. No meio desse cenário caótico, para aumentar o meu espanto, um pai brincava de futebol com seu filho, aproveitando de maneira salutar o espaço público da vivencia social.
Confesso que minha moral de classe média me deixou apreensivo ao passar por aquele local pouco iluminado e com pessoas “estranhas” ao meu extrato sócio-cultural. Mas ao continuar caminhando, aquele pai e filho continuavam a imputar uma dúvida em mim: o que uma família de bem estaria fazendo ali? E minhas reflexões continuaram...
Os filhos da classe média, como eu, foram criados em cidades que estimularam, e continuam a estimular, a segregação social. Não foram criados para entender o mundo do outro e a respeitar o espaço do próximo. Se a pessoa não se reconhece no outro há o estranhamento e, com isso, o medo, inclusive o meu medo de freqüentar um espaço que foi criado para ampliar os laços sociais.
Na realidade aquele pai e aquele filho, reconhecidos por mim como integrantes do meu extrato sócio-cultural, estavam ali para me dizer que as crianças se acariciando naquele local não estavam fazendo diferente do que meus primos mais novos fazem nos clubes sociais e que aquela roda de jovens não estavam utilizando nenhuma substancia que alguns amigos meus utilizam em “baladas” exclusivas.
Não estou aqui defendendo o uso das drogas nem a liberação sexual para crianças, mas incentivando uma reflexão na sociedade para inibir os pensamentos preconceituosos quando nos deparamos com “os outros”. Será que não poderíamos ser mais felizes nos conhecendo mutuamente e entendendo o mundo do próximo? Que tal freqüentar uma praça no próximo fim de semana?
Thybor Brogio - estudante universitário, 21 anos