Cultura

Artigo: Espaço e Criatividade Literária


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Quantos toques uma lauda comporta?

Carlos, um especialista nas artes gráficas, informou-me que, seguindo as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), 2.100 toques entre letras, espaços, vírgulas, etc., correspondem a uma lauda em papel A4.

Zarcillo Barbosa, companheiro de poucas mas gratificantes jornadas, tem uma coluna dominical no JC. Cruzei com ele outro dia na Ford do Nilson Simão. E quis matar uma curiosidade, perguntando: “Quantos toques são necessários para compor seu artigo semanal?”

“Depois de terminado”, respondeu-me, “em torno de 4.500 toques.”

Fui além: “E você escreve o boneco do artigo com essa quantidade de toques, aproximadamente?”

“Não! Às vezes, escrevo texto com até 8 mil toques... depois, vou cortando para chegar ao tamanho sugerido pelo jornal”, disse.

Percebo que, ao se pré definir a dimensão do texto, o escriba acaba tornando-se econômico nas palavras, para descrever um fato, uma situação ou uma crônica.

O escritor e diplomata uruguaio Horácio Quiroga, falecido em Buenos Aires em 1937, foi colaborador por duas décadas da revista Argentina “Caras y Caretas”, que lhe exigia, segundo Pablo Rocca, “o conto breve com um grau inaudito de severidade (...) numa só e exígua página. Melhor ainda: em 1.256 palavras.”

Esclarece Rocca que “esse duro sacrifício de quem recebia um magro pagamento acabou por render fabulosos dividendos à sua estética, já que muito cedo se obrigou a assumir que um conto significa algo mais do que narrar um conjunto de acontecimentos. Logo descobriu que se trata de um dispositivo verbal no qual a forma (isto é, todos os mecanismos de disposição da linguagem) cumpre um papel decisivo em sua eficácia comunicativa e sua capacidade de representação”.

Mas, devido às inúmeras tragédias ocorridas em sua família, o conto urbano e sombrio de Quiroga, mesmo com a limitação do espaço, é marcado pela concisão e densidade de autores festejados como Dostoiévski ou Edgard Allan Poe.

Além do tamanho do texto, outro limitador é a periodicidade de sua elaboração e divulgação. Ignácio de Loyola Brandão, o excelente escritor araraquarense que visita as páginas do Estadão toda sexta-feira, escreve coisas magistrais num dia e outras nem tanto, noutro.

Afinal, o criador de texto não está permanentemente inspirado. O não compromisso de escrever sempre num determinado dia, possibilita criação sem ansiedade.

Os colaboradores do “Ju Machado - Escritório de Arte” têm espaço previamente definido pelo Jornal da Cidade, mas seus colaboradores demonstram muita inspiração ao enfrentar o texto diante do espaço. É um exercício gratificante, no qual, economizando palavras, desprezam-se elementos acessórios e a narrativa fica enxuta e bem disposta.

Irineu Azevedo Bastos Escritor, historiador e colaborador do Ju Machado - Escritório de Arte

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