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Ubu roi


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Política e arte são velhas companheiras. Como afirma o professor Miguel Wady Chaia, da Pontifícia Universidade Católica: “As relações entre arte e política ganham diferentes matizes no transcurso histórico, em função de inúmeros fatores como as particularidades das formações sociais, os períodos de valorização do coletivo ou individual, os contextos de guerras e revoluções, a importância de ações artísticas de grupos, vanguardas ou movimentos e os domínios de gêneros, escolas ou tendências artísticas”.

O surrealismo como corrente, escola ou tendências estética-política-filosófica propõe a desorganização consciente da arte produzida até então. Os surrealistas, em especial, na esteira de Sigmund Freud (1856-1939), procuravam comprovar uma experiência interior, que se manifesta inconscientemente. Buscavam afastar toda e qualquer concatenação dos pensamentos, para deixar livre acesso ao inconsciente. Desejavam incessantemente uma ação totalizante do indivíduo que estivesse além de qualquer conceito vigente.

Na literatura, o surrealismo tem como precursores: na França, Alfred Jarry e Guillaume Apollinaire; na Suíça, Tristan Tzara, criador do Dadaísmo; na Itália, Marinetti, líder do Movimento Futurista. Expandido-se pelo mundo, o Surrealismo influenciou obras de escritores na Grã-Bretanha, Espanha e na América Latina. Numerosos escritores brasileiros refletem, direta ou indiretamente, a influência das concepções surrealistas.

Desses personagens citados, Alfred Jarry (1873-1907) é uma personalidade excêntrica e fascinante que desperta curiosidade. Poeta, romancista, dramaturgo e patafisico francês, nascido em Laval, Mayenne, no dia 8 de setembro de 1873, precoce e culto, boêmio erudito e criativo, fez da escrita uma arma “contra todo o grotesco que há no mundo”. Aos 15 anos de idade, em 1896, publicou Ubu-roi (Ubu rei), peça estranha, alucinada, paródica, anárquica, alheia a todas as regras. Ela antecipa o Surrealismo e o teatro do Absurdo. No teatro L’Oeuvre, a peça é apresentada ao público no dia 10 de dezembro de 1896. A reação da platéia, no entanto, foi negativa e violenta. Henry Bauer, o único crítico a elogiá-la, perde o cargo de redator do Écho de Paris. Depois de uma curta temporada, duas apresentações, foi retirado de cartaz. Somente um ano após a morte de Jarry, em 1908, foi reapresentada.

Ubu roi (Ubu rei) causou grande escândalo, tanto por seus despropósitos, como por sua linguagem e intenções satíricas. Surgiu como sátira à afetação de um professor com o qual Jarry estudara. A obra Ubu rei retrata de forma realista e contemporânea a questão da soberania infame à autoridade ridícula. O personagem central é o Père Ubu, um tipo ridículo, cômico, covarde, cínico e repulsivo que se torna rei da Polônia e simboliza a estupidez e avareza da burguesia. A primeira fala de Ubu na peça é: MERDRA. Personagem chocante, anti-herói, totalmente mau em todos os sentidos provoca mortes, pilhagens, cinismo desenfreado, covardia, tudo sem meias medidas.

Em tempos de sucessivas crises e escândalos na política brasileira, envolvendo a cada dia, principalmente, o nome do presidente do Senado Federal, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), o texto Ubu rei, de Alfred Jarry é uma excelente indicação de leitura.

Esse problema da infâmia da soberania e do soberano desqualificado está “divinamente” inserida nas peças shakesperianas, em específico, nas tragédias dos reis. Kafka, Dostoiésvki, Balzac e Courteline tiveram, também, uma percepção visionária do “grotesco administrativo”.

Michel Foucault (1926-1984) é de uma visão assustadora ao demonstrar que o poder nas mãos do ser ubuesco é simplesmente detestável: “um homenzinho de mãos trêmulas que, no fundo do seu bunker, coroado por quarenta milhões de mortos, não pedia mais que duas coisas: que todo o resto fosse destruído acima dele e que lhe trouxessem, até ele arrebentar, doces de chocolate”. Haja estômago!

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é professor do IESB-PREVE, Colégio Fênix e ITE

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