Éramos onze e constituíamos, cada qual a seu modo e a seu jeito, pontos de referência comunitária. No jornalismo mestre Zarcillo, Roberto Rufino e Mário Sérgio; na engenharia Martin Santiago e Wanderlei Goulart; na medicina Antonio Carlos Mendes, Celso Torres, Bartholomeu Venere e Olegário Bastos. No direito Adib Ayub e eu.
As reuniões eram semanais sempre às terças-feiras, no restaurante da Luso. Do cardápio alimentar - necessariamente pratos incomuns ou pouco usuais - cuidava o saudoso Renatão e o cardápio intelectual, verdadeira "salada de frutas", variava conforme gostos e estações. Ora era o fato político, ora um livro, ora um filme, ora uma situação específica e, até mesmo, a própria fala de assunto, sempre assegurado a todos o direito de palpitar fora de sua área e de sentenciar na sua especialidade.
Devagar fomos nos dispersando, trocando de grupo, de locais e de gostos por imposição do tempo e da pré-velhice, fomos perdendo nossa referência comum e, em certa dimensão, muitos de nós até deixaram de ser referência comunitária. Ontem perdemos Olegário Bastos na experiência de seus oitenta e dois anos de bom combate. Agora, remanescentes e dispersos somos dez e cada um no seu canto. E todos, certamente, estamos muito tristes.
Também Bauru se faz triste em luto pelo anestesista que com pioneirismo transmudou-se em anestesiologista, pelo humanista que vivenciou sua humanidade sendo poeta e cronista, pelo cidadão que cultivou e repartiu generosamente sua cidadania, sua profissão e sua cultura invejável.
Nós, que agora somos dez (também Bauru agora sem um de seus valores), rendemos nosso tributo de dor ao amigo querido e ao ser humano diferenciado que encerrou sua trajetória de vida. Que a terra lhe seja muito leve e lhe conceda justo e merecido aconchego.
José Fernando da Silva Lopes, advogado