Antigamente os habitantes de um país eram qualificados de povo. Depois foram designados de massa, imagino que de fácil manobra, daí o termo. Até há pouco tempo à população do mundo moderno era industrial, proletária, com idéias e padrões rígidos. Procurava dar um sentido à história e lutava em bloco por melhores condições de vida e pelo poder político. A massa pós-moderna é consumista, flexível nas idéias e nos costumes. Vive no conformismo em nações sem ideais. Encontra-se seduzida e fragmentada pelos meios de comunicação, querendo o espetáculo no lugar do poder. Participa sem envolvimento profundo, de pequenas causas inseridas no cotidiano como associações de bairros, defesa do consumidor, minorias raciais, ecologia. A esta mudança os sociólogos estão chamando deserção do social, desmobilização ou despolitização. O neo-individualismo pós-moderno tende ao descompromisso, ao não tenho nada com isso, esvaziando as instituições sociais. As eleições não dependem de boas propostas mais da performance do candidato nos meios de comunicação. O eleitor desacredita que os políticos possam representar o povo ou possuam altos ideais. O indivíduo pós-moderno evita a militância, prefere movimentos com fins práticos, nos quais a participação é personalizada, pois o trambique político é demasiado transparente. Dois fatos recentes ilustram bem essa postura: o caso Renan e a prorrogação da CPMF, embora em relação ao imposto eu tenha verificado uma mobilização grande por parte da sociedade. Os deputados foram comprados disseram as más-línguas.Imaginem se algo tão diabólico aconteceria com um governo tão ético como este.
Pensei logo na eleição de Rodrigo Borja y Borja. Cardeal aos 25 anos serviu a Cúria Romana por cinco papados adquirindo influência e riqueza, mas não poder. Segundo rumores históricos usou sua fortuna para comprar a maior parte dos votos dos cardeais. Eleito adotou o nome de Alexandre VI. Em seguida nomeou o filho César, arcebispo de Valência. Ele abandonou a igreja pela carreira militar. Só para refrescar a memória do leitor quando Maquiavel escreveu O Príncipe, seu protótipo foi o “Ronaldinho” do papa. César Bórgia era famoso pela sua violência. Os historiadores registraram seu convite a alguns inimigos para seu palácio, onde foram aprisionados e assassinados.
A lógica do poder abriga uma zona cinzenta, um espaço onde cessam as obrigações em nome de uma aparente moralidade. Isso foi designado de realismo político, pois Maquiavel partiu da realidade e não da utopia. Para ele o fazer político estava fundado na condição humana tal qual ela é, e não como gostaríamos que fosse. É nessa base lógica que funciona a política real, tão antiga como o homem, imutável e eterna, baseada nas trocas Mesmo com toda indignação da opinião pública em relação à corrupção dominante, essas negociações permitem que tudo continue igual, pois a história se repete sempre...
A autora, Janira Fainer Bastos, é doutora em Estética e História da Arte e articulista do JC