Esportes

Entrevista: Nilson César, o centroavante da narração esportiva

Gabriel Pelosi
| Tempo de leitura: 7 min

Um dos maiores nomes do rádio brasileiro esteve em Bauru na última sexta-feira convidado a debater sobre futebol no 2º Seminário de Comunicação Esportiva da Unesp. Durante a visita, o craque dos microfones da rádio Jovem Pan de São Paulo, Nilson César, falou com exclusividade ao JC.

Narrador número um de uma das emissoras mais populares do Brasil, Nilson César falou sobre o seu início no rádio, deu suas opiniões sobre futebol brasileiro, falou de Robinho e ainda revelou o seu time do coração. Através da profissão, Nilson César conheceu 53 países, narrou mais de 200 GPs de Fórmula 1, inclusive o que culminou na morte do ídolo Ayrton Senna, e esteve em seis copas do mundo. Ah, ele ainda joga futebol. É centroavante no time dos amigos em Sorocaba. Confira essa e outras histórias na entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Como foi o seu início no rádio, você sempre trabalhou com esportes?

Nilson César – Eu comecei na Rádio Clube de Sorocaba em 1978. Eu nasci em Sorocaba e desde muito cedo sentia que tinha vocação para o rádio esportivo, porque eu era atração nas peladas da rua, não jogando, mas narrando. Eu narrava os jogos de botão. Ia assistir ao treino do São Bento de Sorocaba, levava uma latinha vermelha de molho de tomate e ficava narrando o treino. Comecei em 1978, com 17 anos, e fiquei muito pouco tempo em Sorocaba porque com 20 anos eu já fui para a Jovem Pan. Estou lá há 25 anos, já estou virando móveis e utensílios da Pan (risos). Eu trabalhei com jornalismo geral muito tempo na Jovem Pan. Mas sempre trabalhei com esportes, porque eu acho que quem faz o jornalismo esportivo é o único jornalista capaz de falar sobre qualquer assunto. Ao contrário do que muitos acham, que o jornalismo esportivo é um apêndice dentro do jornalismo, eu acho que o jornalista esportivo eu o cara diferenciado.

JC – Mesmo trabalhando quase que diariamente na Jovem Pan em São Paulo, você optou por continuar morando no interior. É por um motivo especial?

Nilson – Sabe porque que eu moro lá em Sorocaba, porque eu já tive a experiência de morar em São Paulo e não gostei. Eu sou caipira do interior. Então, o cara interiorano quer estar com os amigos, quer bater uma bola no clube com os amigos. As minhas raízes, os meus amigos estão todos em Sorocaba, por quê que eu vou sair de lá?

JC – Você falou em bater uma bola. Costuma jogar futebol com freqüência?

Nilson – Jogo muito.

JC – Joga em qual posição?

Nilson – Olha, eu costumava jogar como pivô no futsal. Eu disputei até Jogos Regionais por Sorocaba. No campo eu jogo como um “centroavantão”, como o Evair, só armando as jogadas. De costas para o gol.

JC - Como você avalia o Campeonato Brasileiro, com a hegemonia de um clube só, no caso o São Paulo. Você também acha que o futebol brasileiro passa por uma má fase?

Nilson – Eu não concordo com isso. Está todo mundo falando que o futebol brasileiro está em um nível baixo. Outro dia eu estava vendo um jogo do futebol inglês e depois vi São Paulo e Figueirense. São Paulo e Figueirense foi um jogo muito melhor. A principal matéria prima do Brasil, o principal produto brasileiro é o atleta de futebol. Então agente exporta. Aqui (no Brasil) há uma renovação permanente. Eu duvido que o São Paulo tenha dificuldade para enfrentar qualquer clube badalado do mundo hoje. O Cruzeiro tem nove pontos atrás do São Paulo, que é um dos maiores times do mundo. Não tem nada de baixo nível. Eu não gosto dos “profetas do apocalipse”, que ficam dizendo que o futebol brasileiro está em baixo nível. O futebol brasileiro é sempre o melhor do mundo. Por que nos campeonatos espanhol e italiano tem gente adoidado no estádio? Porque os grandes jogadores da Europa são brasileiros. Os caras vão lá para aplaudir os brasileiros. Aqui há uma renovação permanente. Baixa qualidade técnica são aqueles robôs da Alemanha e os robôs ingleses.

JC - Para você o São Paulo já pode ser considerado o campeão brasileiro?

Nilson – Sim, o São Paulo está muito próximo do título. Se bem que eu já vi cada coisa no futebol, incríveis. Mas está próximo sim, principalmente pelo treinador que tem. Acho que atualmente o Muricy é o melhor técnico que tem no Brasil. Vive a melhor fase. O grupo de jogadores é muito forte. Mas principalmente com esses pontos à frente dos outros, o Muricy não perde esse campeonato não.

JC - Como você avalia o panorama financeiro dos clubes do interior, que é comum terem dificuldades para conseguir patrocinadores e viabilizar equipes de qualidade para se manter nas primeiras divisões do futebol?

Nilson – Está todo mundo de chapéu na mão. O número de empresas que você encontra na capital é diferente do que no interior, obviamente. Mas não é só isso não. O problema é que sempre foram administrados de forma extremamente amadora. Não só os pequenos como os grandes. O São Paulo, que é tido como um primor em administração, não é bem assim não. Nós temos um futebol, dentro de campo, de primeiríssimo mundo e fora de campo de terceiro mundo em nível administrativo. E os clubes sofrem financeiramente. E no interior não é diferente. São sempre aqueles abnegados, que estão lá por amor ao clube, sempre de chapéu na mão pedindo auxílio. Infelizmente é assim que funciona. Porque a administração dos clubes é sempre muito amadora.

JC - Você acha válida a discussão sobre a retomada do título brasileiro de 2005 pelo Internacional após as declarações de Alberto Dualib (presidente do Corinthians)?

Nilson – Não. Não acho válida coisa nenhuma. Acabou dentro de campo é aquele resultado. Isso é palhaçada, acabou dentro de campo, acabou. Falcatrua, resultado armado, desde que o futebol nasceu, existe. Então, isso é conversa mole.

JC - Você já narrou jogos do Noroeste em Bauru?

Nilson – Um monte. Não só pela Jovem Pan, mas desde quando eu ainda estava na Rádio Clube de Sorocaba. Naquela época, o Noroeste tinha um goleiro, que, se não me engano, chamava-se Roque. Eu adorava ficar atrás do gol ficar vendo ele jogar. Já narrei no Alfredo de Castilho muitas vezes.

JC - Há algum tempo atrás li uma matéria que criticava suas opiniões sobre a atuação de Robinho quando este ainda jogava no Santos. O que houve na época?

Nilson – O Robinho é o seguinte. Ele é um garoto que se deslumbrou e passou a se sentir acima do bem e do mal. Eu não gosto de conviver com gente assim. Eu acho que todo mundo é igual. Todas as vezes que eu cruzei com o Robinho ele me mostrou ser uma pessoa de tremendo nariz empinado. E eu falava isso. “Se esse rapaz continuar dessa forma, e a carreira de jogador de futebol é curta, ele vai ter seqüelas no futuro”. Mas parece que ele está melhorando. Quem conviveu com ele nos últimos tempos me disse que ele baixou um pouco a bola. Foi mais uma crítica como orientação para o cara. Mais do que qualquer outra coisa. Não tenho nada pessoal contra ele.

JC - Você já recebeu convites para trabalhar na televisão?

Nilson – Já sim. Mas eu não tive interesse. Quando você chega a um ponto na rádio e consegue ser o titular de esportes em uma rádio como a Jovem Pan, a expectativa que irão criar sobre você na televisão é a mesma do rádio. E isso é impossível. O Osmar Santos é um exemplo disso. Ele foi o “Pelé” desse negócio de narrar futebol e na televisão ele era apenas mais um. Você veja os grandes narradores da televisão nunca foram de ponta no rádio. O Galvão Bueno era quarto ou quinto repórter da rádio Gazeta. O Luciano do Vale era segundo ou terceiro locutor em emissoras de rádio. E na televisão, na minha concepção, Luciano do Vale e Galvão Bueno são maravilhosos narrando esporte. Na minha opinião, eles são os melhores na televisão. O prazer que eu tenho narrando futebol no rádio é muito diferente. Eu já transmiti alguns eventos em televisão e é muito diferente. Então, tudo na vida eu faço aquilo que me dá prazer. O que não me dá prazer eu não faço. Então eu me sinto muito feliz trabalhando no rádio. E outra coisa, eu sou muito feio para trabalhar na televisão (risos).

JC - Você torce para qual time?

Nilson – Olha, eu acho uma grande besteira o narrador de futebol ficar escondendo o time que torce. Eu não tenho nenhum constrangimento em dizer. Eu sou São Bento de Sorocaba. Eu nasci ao lado do antigo estádio do São Bento de Sorocaba. Então, não tinha outro jeito, torço para o São Bento de Sorocaba.

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