Em lendo a “Tribuna do Leitor” de 23, pp., deparei-me com a seguinte colocação: “Ninguém pode modificar a realidade física que o envolve, seja um mal físico de seu organismo ou um mal social de sua sociedade, apenas pelo pensamento positivo ou pela forma da mente.” E mais: “O Segredo contribui apenas para o egoísmo, além de ser alienizante e idiotizante...”
Na mesma missiva, o autor continua: “Deveríamos modificar nosso interior, tornando-nos melhores para, através do crescimento de cada indivíduo, podermos modificar para melhor a realidade que nos cerca.”
As duas primeiras afirmações são contundentes e me sugeriram alguns questionamentos:
a) Como podemos modificar nosso interior? Por meio da fé ou da crença no poder de nossa mente (pensamento positivo), que nos leve à ampliação do conhecimento e da consciência?
b) Através de algum procedimento cirúrgico, por meio de manipulação física?
c) Será que o segredo do “Segredo” não está, em outras palavras, no poder da fé, no poder da crença de que, se priorizarmos a entrada de pensamentos positivos em nossa mente, estes venham a se transformar em mecanismos que contribuam para promover mudanças em nós e até mesmo de valores pessoais capazes de, até quem sabe, “remover montanhas”. Mc. 11-22.
d) Será que a ciência médica, embasada na filosofia de A. Comte, se esconde atrás dessa polaridade do positivismo cartesiano, preocupado em descobrir como ocorre um fenômeno, baseando-se em fatos experimentais deterministas e reducionistas, opondo-se a uma ciência evolucionária, preocupada com o por que, utilizando-se de métodos como a analogia e a observação, a reflexão e a interiorização, mais holísticos e qualitativos?
e) Quem sabe, esse pensamento positivista, baseado na certeza rigorosa dos fatos, na racionalidade científica, que deve ser passível de testes, verificados segundo condições e objetivos empíricos, controlados para assim definir um diagnóstico final, se veja impedido de encontrar respostas adequadas e convincentes?
f) Ou ainda seria porque esse procedimento exclui e elimina um relacionamento interpessoal, através de uma conversa mais demorada, que nos leve à avaliação emocional, à história de vida da pessoa, de sua família, de seus valores psicossociais, religiosos, morais, etc. etc?
Neste caso, dependendo das respostas, realmente fica difícil, quase impossível, transcender, entender e até mesmo aceitar um novo modo de pensar que precisa ser lido e interpretado à luz da subjetividade que, ao lado do aspecto físico, também é inerente a todo ser humano.
José Carlos Francisco - psicólogo clínico - CRP 06/27226-4