As democracias européias têm seus nobres. Alguns sonham com a volta ao trono. No Brasil existe um grupo de monarquistas ainda hoje, onde se destacam os Cunha Bueno, pois nós também possuímos uma família real. Duas alas discutem quem é o herdeiro do trono. Meu candidato é João de Orleans e Bragança. Ele é a pessoa adequada para governar o Brasil, caso volte o parlamentarismo. Pelo menos João, um fotógrafo de talento, administra com sucesso uma pousada e um alambique em Paraty. O príncipe trabalha.
Isso revela o caráter do homem para quem a nobreza não está nem no sangue nem no nome. Mas, vamos ao assunto. A cachaça esteve presente nas mesas da aristocracia portuguesa desde os tempos de D.Pedro II. Dentro dessa tradição, João de Orleans e Bragança, dono de muito metros quadrados de cana, resolveu produzir a Maré Alta, bebida artesanal com a chancela da família real. Existe uma diferença entre cachaça e pinga. A primeira é feita a partir do melaço da cana, enquanto a segunda é fabricada com a garapa destilada que depois da fervura “pinga” na bica do alambique.
Essa introdução serve para colocar o leitor no contexto da seguinte história. Uma amiga bauruense foi participar da FLIP- Festa Literária Internacional de Paraty e da Off-Flip, pois lá estão os melhores. Essa mulher maravilha participa daqueles encontros semanais no café do Lira, quando a gente se encontra para recarregar as baterias. Na última reunião contou que quando Deus estava distribuindo terras pelo mundo, o diabo reclamou sua parte. O Senhor apontou para um pedacinho de terra entre o céu e o mar e disse: é para ti. Na confusão e expulsão dos anjos ruins, ele acabou não aceitando o presente e foi para os quintos dos infernos. Deus então transformou aquele ponto em um pedaço do paraíso.
Perguntei-lhe quem inventou isso e ela respondeu, o Joãozinho. Ela conhece o Joãozinho 30, pensei. Aproveitando a pausa foi logo despejando: fui num sarau na casa do príncipe. Meus olhos quase saltaram das órbitas. Liguei então o Joãozinho dela ao meu candidato a rei do Brasil, João de Orleans e Bragança. Descrevendo o cenário falou nos jardins iluminados com velas e na bebida servida: a Maré Alta. Repetiu o relato sobre o fungo “sacoharomyces cerevisiae” principal agente da fermentação de bebidas. Na opinião dos especialistas o humilde fungo unicelular pertence ao reino biológico dos encariotos, um grupo onde estão os seres humanos. No começo até duvidei, mas depois cheguei à conclusão que só podia ser verdade, afinal aquilo é o paraíso e lá vive e trabalha - atente para o detalhe - o herdeiro do trono brasileiro.
Minha refinada amiga está mais para o champagne do que para a cachaça, por isso o Jair meio em dúvida questionou: você bebeu? Sim, a noite toda. Deu nota 8.0 para a iguaria, pois não simpatizou muito com o Sr. Judas Escariotes, o gerente do alambique. E foi logo explicando que um dos palestrantes entrou dando cambalhotas. Falou também de um “gato rosa Xuxa” parado feito uma estátua perto de uma árvore. Vocês acreditam? Palestrante que em vez dos pés põem as mãos no chão e gato cor de rosa? Só podia ser a pinga do Joãozinho fazendo efeito. Nota oito para uma bebida com selo real. Sei não...
A autora, colaboradora do Ju Machado escritório de arte, assina com o pseudônimo de Rosa Bertoldi.