Nacional

Seca compromete próxima safra de café

Por Marcelo Toledo | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Ribeirão Preto - O clima seco e a estiagem prolongada de até 70 dias na maior parte do Estado já comprometeram a safra de café do ano que vem em São Paulo. A estimativa do setor é que a perda em 2008 já esteja em ao menos 5%, o que é considerado muito ruim, já que a próxima safra será grande (a cultura é bianual, e 2007 foi o ano de baixa produção). Alguns produtores na região de Franca (400 quilômetros ao norte da Capital) já falam em perdas de 20%.

O problema é que, sem chuvas satisfatórias desde 26 de julho, os cafezais terão no próximo ano a mistura de frutos novos com velhos nos pés. Nem mesmo uma forte chuva ontem, por exemplo, poderia solucionar o problema. E isso vai acontecer justamente por causa dos efeitos de uma chuva forte ocorrida em julho. “Com a chuva forte que houve em julho, seguida de uma elevação da temperatura, o café ‘pensou’ que era época de florescer. A florada atrapalhou o ciclo do café. Ele vai florescer de novo e terá frutos misturados no pé, verdes e maduros. Isso atrapalha a qualidade do café e da bebida”, afirmou Hilton Silveira Pinto, diretor do Centro de Ensino e Pesquisa em Agricultura (Cepagri), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O produtor Manoel Oliveira Lima, que também é administrador de uma fazenda de 1.040 hectares de café (o equivalente a 1.350 campos de futebol) em Ribeirão Corrente, na microrregião de Franca, está pessimista com a safra. “Na média, a perda foi de 20%, mas há alguns cafezais em que o prejuízo atinge 50% porque alguns pés estão quase perdidos”, afirmou Lima. Segundo ele, a solução para os produtores é “rezar para chover”. “Só assim conseguiremos salvar o que sobrou”, disse ele.

O agricultor estima que o prejuízo mínimo na propriedade de 2,7 milhões de pés de café será de R$ 1,5 milhão. O produtor José Mário Marques afirmou que as perdas em seu cafezal de 50 hectares, em Ubiraci (MG), somam 15% até agora. “Os institutos de meteorologia não prevêem chuva nos próximos sete ou oito dias, o que é muito ruim para a maioria dos produtores”, disse.

Seria preciso chover ao menos 50 milímetros para interromper os danos causados nos cafezais - para quebrar a estiagem agrícola, é necessária uma chuva de no mínimo 10 milímetros. De acordo com o pesquisador da Unicamp, com o calor atual, a produção futura está danificada, e a taxa de florescimento do café pode cair ainda mais, o que já é esperado pelos cafeicultores. “Lavouras mais novas, de sete ou oito meses, ou de um ano e meio, estão em uma situação crítica, de secamento de folhas”, afirmou o engenheiro agrônomo Ricardo Lima de Andrade, diretor-secretário da Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas de Franca (Cocapec), que tem 1.700 cooperados.

De acordo com Andrade, o déficit hídrico, com o esgotamento das reservas do solo, tem preocupado o setor, porque setembro e outubro compreendem o período de floração. “A qualidade não fica muito boa. Muita seca ou muita chuva, o que é diferente ou exagerado, causa problemas depois”, afirmou Silveira Pinto.

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Recuperação só virá em 2009, diz entidade

Ribeirão Preto - As perdas provocadas desde julho por causa da forte estiagem nas regiões cafeeiras de São Paulo, entre as mais importantes do País, só poderão ser recuperadas na safra de 2009, de acordo com o diretor da Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas de Franca (Cocapec) Ricardo Lima de Andrade. “O que já foi perdido até agora é irreversível. Só poderá ser recuperado na safra seguinte”, afirmou ele.

A previsão inicial era de a Cocapec, por exemplo, atingir 1,5 milhão de sacas na safra do ano que vem, mas a estimativa terá que ser revista, de acordo com Andrade. “Essa situação nos preocupa, porque as lavouras estão em estado de murcha”, afirmou.

Neste ano, a safra chegou a 600 mil sacas. A irrigação poderia resolver ou amenizar o problema, mas a estimativa é que na Mogiana, uma das principais regiões produtoras de café do Estado e do país, somente 10% dos produtores tenham irrigação em suas lavouras, por dois motivos: a altitude, que chega a mil metros em algumas propriedades rurais - e, portanto, dificulta a escavação de poços - e o custo financeiro para se levar água aos cafezais. “Não são todos os produtores que têm condições de irrigar suas propriedades”, afirmou o técnico agrícola Alex Ponce Faleiros, da Cocapec.

Com isso, de acordo com Hilton Silveira Pinto, do Cepagri, a única solução possível precisa cair do céu, literalmente. “Nessa região da Mogiana está tudo seco, assim como na maior parte do Estado. Enquanto não chover, não haverá uma solução”, afirmou. A colheita de café na região Mogiana, em SP, vai de maio a setembro.

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