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Reali Jr., os Abramo, os Dias, Janira...


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Minha mulher, Janira, durante o seu mestrado e o doutorado em “Estética e História da Arte”, na Escola de Comunicações e Arte da USP, tendo como tema a criação artística do antigo “menino de engenho” e notável pintor brasileiro Cícero dos Santos Dias, nascido em Escada, Pernambuco, em 1907, que radicou-se em Paris a partir de 1937, até seu falecimento em 2003, com ele conviveu tanto no Brasil quanto na França. Aqui, entre as idas e vindas de Cícero, para participar de exposições de seus quadros, ora no Rio, ora em Recife ou São Paulo, ela sempre manteve contatos com o pintor, mesmo depois de concluída a sua vida acadêmica. Com o tempo, do seu relacionamento com Cícero e sua mulher, a francesa Raymonde, nasceu uma amizade que os aproximou e quando eles chegavam no Brasil, geralmente se encontravam.

Cícero expôs em São Paulo na década de 80, e Janira lá foi. Um dia depois da abertura da Mostra, convidada para ir à residência do pintor Glauco Pinto de Moraes, localizada nos Jardins, próxima da Avenida Nove de Julho, participou da gravação de um documentário, em que Cícero seria entrevistado. Vários intelectuais e artistas lá estavam e Jayme Monjardim dirigiria a filmagem, da qual ela formulou ao pintor pernambucano algumas perguntas. Terminado, Cícero e Raymonde se retiraram do local, mas ela continuou dialogando com os que ali continuaram conversando.

Aqui abro um parêntesis: Cícero Dias teve um papel inusitado durante a 2ª Guerra Mundial. Ele deslocou-se de Paris para Lisboa, sendo o portador do original da poesia “Liberté”, de Paul Eluard, transformada em panfletos jogados de avião no território francês, pela Royal Air Force da Inglaterra, estimulando a população oferecer resistência aos alemães. Desnecessário também escrever que Cícero Dias, mesmo morando na França, nunca esqueceu suas raízes brasileiras, expressando-as em seus quadros e gravuras, com predominância do verde dos canaviais pernambucanos, quase sempre.

Voltando à conversa que rolava na casa do Glauco Pinto de Moraes, minha mulher conheceu Cláudio e Radha Abramo e o casal convidou-a para, na noite seguinte, ir jantar em sua casa, próxima do local onde se encontravam.

Ela foi, teve a oportunidade de trocar idéias interessantes sobre sua área de atuação e ouviu uma confissão curiosa de Radha, quando Cláudio foi exilado e chegou em Londres. Como o dinheiro que portavam era curto e seu marido gostava muito de cafezinho, ela comprou dois quilos de café em pó, no sentido de preservar o valor de aquisição do produto. Ocorre que o café estocado terminou e ela voltou ao mercado para comprá-lo. Daí a surpresa: o preço era o mesmo, pois na Inglaterra não havia inflação, tão alta naquela época, no Brasil.

Essas recordações ocorreram graças ao livro do Reali Jr., “Às margens do Sena”, quando ele confessa ter grande admiração por alguns jornalistas. “Um é Cláudio Abramo, com quem tive o prazer de conviver alguns anos, quando foi correspondente da “Folha de S. Paulo” em Paris, na década de 80. Amelinha (minha mulher) e eu nos aproximamos muito dele e de sua mulher Radha, correspondente então da revista semanal “Isto é”. Cláudio sentia as coisas, tinha uma sensibilidade muito grande pela notícia, era obsecado pela informação – principalmente com a informação política. Além disso, foi responsável pelas maiores reformas já feitas no “Estado de S. Paulo e na “Folha de S. Paulo”. Em momentos difíceis você podia contar com ele. Desde então, sempre o tive como exemplo”, confessa.

Esse depoimento e recordação fecham o círculo, envolvendo nome de pessoas cultas e arrojadas, que testemunharam e viveram tempos de muitas restrições políticas e sociais.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é colaborador de Opinião

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