Bairros

Rapaz de 26 é 3ª vítima fatal de leishmaniose em Bauru

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

O número de pessoas com diagnóstico de leishmaniose diminuiu em Bauru, mas a doença continua sendo perigosa e letal. Anteontem, o servente de pedreiro Robson do Carmo Picolo, de 26 anos, morreu vítima da doença. No mesmo dia, uma criança de apenas 1 ano de idade, moradora do Jardim Silvestre, foi diagnosticada com leishmaniose, mas já concluiu o tratamento no Hospital de Base de Bauru (HE) e recebeu alta.

Ambas as vítimas são oriundas de bairros periféricos, onde são comuns terrenos baldios com lixo acumulado e em decomposição, locais propícios para procriação do mosquito palha, transmissor da doença em cães e humanos.

Através do Departamento de Saúde Coletiva (DSC), a Secretaria Municipal de Saúde informou que Picolo estava internado no HE desde o dia 3 de outubro e apresentava, além da suspeita de Leishmaniose Visceral Americana (LVA), uma outra doença pré-existente, o que comprometeu a resposta ao tratamento.

Na manhã de anteontem, Picolo, que já não respondia ao tratamento, faleceu na UTI do hospital. A confirmação do diagnóstico de leishmaniose foi dada ontem pelo Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo. Pela evolução do quadro, o estado de saúde de Picolo quando chegou ao hospital já era grave.

Quando a leishmaniose é diagnosticada precocemente e o paciente não está com o sistema imunológico debilitado, as chances de cura são altas, apesar de o tratamento provocar efeitos colaterais. Em muitos casos, não é necessária internação.

O médico infectologista Fernando Monti, que trabalha no HE e já tratou de vários pacientes com leishmaniose, não acompanhou o tratamento do homem que morreu ontem, mas avalia que provavelmente ele apresentava condições prévias que impediram o sucesso do tratamento. “Deve ser um caso de co-morbidade, quando uma outra doença ou uma condição clínica peculiar se associa ao caso. Com isso, o tratamento convencional não consegue reverter todas aquelas condições prévias que levaram ao agravamento do quadro”, comenta.

No bairro onde Picolo morava, são muitos os terrenos com lixo acumulado. Osvaldy Ticão Martins, presidente da Associação de Moradores do Parque Viaduto e adjacências, afirma que a própria população contribui para a proliferação do mosquito palha. “As pessoas deixam acumular entulho e lixo nas calçadas e nos terrenos. Não é porque o bairro tem asfalto que a gente está seguro. Os moradores não se previnem e são eles os responsáveis por essa doença ainda aparecer no bairro”, afirma.

Com mais essas duas confirmações, Bauru totaliza 16 registros de infectados com a doença e três mortes. Em 2006, foram registrados 71 casos e quatro mortes, o que configurou o pior momento da epidemia na cidade.

Para Monti, a ocorrência da terceira morte por leishmaniose neste ano não é um indicativo de agravamento da doença na cidade. Ele ressalta que houve uma diminuição no número de casos da doença em relação ao ano passado. “Aparentemente, a tendência é de regressão da ocorrência da doença, mas seria preciso aguardar pelo menos mais dois anos para realizar uma análise científica para confirmar essa redução”, frisa.

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Sem forças

Morador da quadra 2 da rua Silvério Spinelli, no Alto Paraíso, Robson do Carmo Picolo trabalhava como servente de pedreiro, mas não tinha emprego fixo. De acordo com Helena Cirelli Utyama, vizinha da vítima, a evolução da doença foi muito rápida e, mesmo antes de ser internado, Picolo já aparentava estar debilitado.

“Um dia antes de ir para o hospital, ele estava sentado em frente à casa dele com uma tosse seca, e já não tinha forças para tossir. Ele estava muito magrinho”, conta a vizinha, revelando que o servente vinha reclamando de dificuldades constantes para respirar.

Picolo foi enterrado na manhã de ontem. A família, ainda abalada, preferiu não conceder entrevistas.

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