A disputa pelo diretório municipal do Partido dos Trabalhadores (PT) em Bauru revela a tradicional divisão de forças que brigam pelo poder no interior da legenda no Município. Com eleições marcadas para o dia 2 de dezembro, a comissão eleitoral não reconhecia até ontem à tarde a homologação da chapa “Por um PT socialista e democrático”, encabeçada por Jorge Moura.
Integrante do grupo oposicionista, o sindicalista Jesus Francisco Garcia frisa que com o grupo de oposição assumindo o diretório, o PT irá disputar as eleições municipais do ano que vem com chapa para prefeito e estará aberto para discutir alianças. “Quero deixar claro para a militância porque nós vamos disputar a representanção no Município. Vamos disputar enquanto cabeça de rato e não como rabo de elefante, como tem sido até hoje. Não tem essa de fazer aliança com o PSDB”, garante Garcia.
De acordo com a coordenadora da comissão, Williana Oja, hoje serão avaliados os problemas na inscrição da chapa apresentada por Moura. “O que eu posso adiantar é que um dos problemas é com o nome apresentado para a presidência e que vai ser muito difícil de ser solucionado. Porque o tempo de filiação dele (Moura) não é o exigido pelo estatuto do partido. Então vamos colocar em discussão isso, além dos outros problemas que estão acontecendo”, explica. Oja esclarece que um posicionamento oficial só poderá ser emitido após a reunião da comissão eleitoral.
No entanto, Moura comemorou ontem a homologação, na última terça-feira, de sua ficha de filiação de 2005 pelo diretório nacional em Brasília, após um recurso à esfera nacional do partido. “A defesa do meu recurso foi feita por Valter Pomar no diretório nacional. Deferiram meu recurso e incluíram meu nome no quadro de filiados com mais de um ano” Segundo Moura, o problema que estaria gerando questionamento sobre sua candidatura surgiu porque sua ficha não foi homologada pelo diretório municipal e nem enviada ao diretório nacional. Para Moura, sua chapa está na disputa pelo poder do diretório municipal. O prazo final para apresentação de recursos sobre nomes que disputarão as eleições se esgotou às 20h de anteontem. “Tivemos a homologação da chapa pois não recebemos nenhuma notificação com relação a problemas de membros da nossa chama”, entende.
Se confirmada, o grupo de Moura disputa as eleições internas contra a chapa “Construindo um novo Brasil” que está homologada. Alecssandro Bússola encabeça a chapa integrada pelo vereador José Carlos de Souza Pereira (PT), o Batata, de quem já foi assessor, e ligada a Estela Almagro, atual presidente do diretório petista em Bauru.
Moura avalia que conseguiu formar um grupo coeso com as tradições do PT. O que a oposição almeja é hegemonia política, que Batata e Estela conseguiram consolidar nos últimos anos.
“Excluídos”
Essa posição mais do que apontar para uma divisão do partido, com a polarização de chapas para disputa de poder, remete a divergências internas de longa data – pelo menos há uma década. Definida como os “excluídos” pelo sindicalista Garcia, a chapa “Por um PT socialista e democrático” conta, segundo Moura, com filiados ligados ao movimento sindical, movimento estudantil, Juventude do PT, movimento de trabalhadores sem-terra, setores progressistas da Igreja Católica e correntes internas do partido. “Todos os setores que fundaram o PT hoje estão representados”, garante.
Garcia representa na chapa de oposição o segmento sindical – ele é do Sindicato dos Eletricitários (Sinergia/CUT) e integra a corrente “Novo Rumo”, ligada ao deputado estadual Rui Falcão.
O sindicalista segue a tese da polarização do partido na cidade. “Nossa expectativa é retomar o Partido dos Trabalhadores aqui no município de Bauru”, explica.
No plano mais imediatista, ele defende uma reflexão da relação custo-benefício, principalmente, da representação institucional da legenda no Município.
Garcia pontua ainda que outra meta é a formação da militância petista, destaca a necessidade do partido saber como são os repasses de recursos para o Município que garantam as políticas públicas e ainda a organização do partido na cidade. O sindicalista aponta, também, a urgência do PT discutir a retomada do desenvolvimento de Bauru. “Não só no Município mas também na microrregião. Não estamos inventando a roda. É só implementar as resoluções do PT, que nós mesmos aprovamos”, destaca.
Dúvida
Jorge Moura questionou, ontem, o fato das contas do diretório municipal estarem bloqueadas. Ele entende que o partido em Bauru tem que ser “passado a limpo” para que seja o mais transparente possível. “Se houve algum erro ou omissão ou má-fé, os responsáveis obviamente terão que ser responsabilizados”, salienta. A atual presidente do diretório do PT, em Bauru, Estela Almagro nega que as contas do partido estejam bloqueadas judicialmente. “A conta está inativa e as contribuições regulares são feitas através de contribuição direta ao diretório nacional. Tirando isso, a única possível movimentação seria se todos os filiados contribuíssem mensalmente, o que infelizmente só acontece a cada dois a três anos. Não há movimentação, então não há uma conta organicamente em movimento”, argumenta.
A oposição afirma não ter conseguido depositar suas contribuições na conta do partido em Bauru, sendo obrigada a recorrer ao diretório estadual. Conforme Jesus Francisco Garcia, a direção estadual abriu uma exceção, caso contrário a chapa de oposição estaria inviabilizada.
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Recuo da impugnação
O grupo de oposição não descartou a hipótese de pedir impugnação da chapa “Construindo um novo Brasil”, encabeçada por Alecssandro Bússola. Anteontem, uma reunião do grupo optou pelo risco menor. Levantou-se a hipótese de que a impugnação da chapa de Bússola poderia levar a uma intervenção do diretório estadual em Bauru.
Jesus Francisco Garcia explica que se optou pela estratégia de garantir a eleição. “Para evitar qualquer tipo de intervenção. Porque do jeito que está a gestão do partido no município, a tendência é uma intervenção”, ressalta.
Um dos argumentos para a impugnação seria a presença do vereador José Carlos de Souza Pereira, o Batata, na chapa de Bússola, seu ex-acessor. Garcia diz que havendo apenas um representante do partido na Câmara, Batata já é membro do diretório. Fato confirmado pela presidente do diretório municipal, Estela Almagro. No entanto, ela alega que não há irregularidade na constituição da chapa com o vereador. “Apenas empresta peso político considerável o que, certamente, motiva a presença do Batata nesta chapa”, avalia.
Outra questão seria a negligência na gestão do partido. “Eleitos pela militância, nós vamos acionar o Ministério Público”, frisa Garcia.