Esportes

Imbatível, ‘Maquininha’ vence jogos contra garotos da Reserva Araribá

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

“Duelo de gigantes”, diria um cronista esportivo das antigas, sobre a “contenda” disputada ontem pela manhã, na Vila Souto, zona oeste de Bauru. De um lado o Araribá de Avaí, que vinha de uma série invicta que durava quase um ano. Do outro, o Maquininha Vermelha do Parque Viaduto, que há seis meses não sabia o que era ser derrotado.

Tudo bem que não se tratava de um jogo profissional, mas sim de um amistoso entre dois times de garotos entre 11 e 13 anos disputado em um campinho de terra da periferia de Bauru. Além do que, os dois “escretes” não contavam com medalhões do naipe de um Kaká ou de um Lionel Messi: só pequenos candidatos a heróis, como Tiago Silvério Camilo, 12 anos, volante do Araribá.

Recentemente, em Bauru, ele foi selecionado em uma “peneira” organizada pelo Internacional de Porto Alegre e está prestes a se transferir para o Rio Grande do Sul. “Vou me mudar para lá em janeiro”, dizia, orgulhoso. Detalhe: assim como seus companheiros de time, Tiago é indígena da tribo terena, uma das duas etnias que habitam a reserva Araribá, no município de Avaí (a outra é a guarani). No confronto de ontem de manhã, o “time da tribo” acabou sendo derrotado por 4 a 2 pelos “caras pálidas” do Parque Viaduto.

Caras pálidas? Sim, de fome e cansaço. Para chegar ao campinho esburacado da Vila Souto, os atletas do Maquininha Vermelha tiveram de caminhar cerca de três quilômetros à pé. Como de praxe, quase nenhum deles havia tomado café da manhã - e certamente não iria almoçar.

Mais uma vez, porém, eles mostraram que “pequenos detalhes” - como a ausência de chuteiras, uniformes, alimentação e transporte - não são capazes de influenciar o resultado de uma partida de futebol.

Pelo contrário: parecia até que os fatores adversos ajudaram a aumentar o talento dos jogadores do Parque Viaduto. O Maquininha dominou os 60 minutos de jogo (dois tempos de 30) do começo ao fim, e o Araribá quase não criou chances de gol.

Uma das poucas surgiu em um lance duvidoso no começo do segundo tempo, quando o jogo já estava 3 a 1 para o time do Parque Viaduto. O goleiro Buiú, do Maquininha, tentou abafar um cruzamento do ataque adversário e acabou se atrapalhando: para encaixar a bola, ele foi obrigado a colocar os pés para fora da grande área (que havia sido pintada a mão, horas antes, pelo técnico e cartola do Maquininha, o mecânico de refrigeração Osvaldy Martins, mais conhecido como Ticão).

Mal posicionado, o árbitro acabou marcando falta para o Araribá. O volante Tiago bateu forte, sem chances para Buiú, e diminuiu a diferença. Mas já era tarde. Segundos depois, Kokózinho, do Maquininha, recebeu livre na entrada da área e chutou firme no canto esquerdo do gol, fechando a fatura.

A derrota e a conseqüente perda da invencibilidade não abalaram os ânimos do professor indígena Davi Henrique da Silva Pereira, técnico do Araribá. “Eles jogaram bem, mas acho que acabaram sentindo a má qualidade do campo”, justificou.

Para Pereira, a participação em eventos como o de ontem ajudam tornar os indígenas mais integrados com o restante da população brasileira. “Isso mostra que estamos inseridos na sociedade e serve para dar visibilidade a nossa cultura”, diz o professor, que costuma usar expressões no idioma terena - como “Yayeke!” (Toca! Toca!) e “Isika guruke” (Chuta pro gol!) – durante os treinamentos com os garotos.

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