Brasília - Em uma semana no cargo, o presidente interino do Senado, Tião Viana (PT-AC), impôs seu estilo na Casa e entre os pares. Apelou pela paz e a unidade, mostrou-se aberto ao diálogo e buscou dar atenção à oposição - já visando a controvertida votação da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) até 2011.
Na interinidade, Viana retomou as votações no Senado, reuniu os senadores com o vice-presidente José Alencar e ainda conseguiu afastar a Casa do foco da crise política. Os elogios vêm da oposição e da base aliada do governo. Mas há quem advirta: a desconfiança deve ser mantida, já que nos bastidores o petista é acusado de trabalhar para permanecer em definitivo no cargo.
“Eu respeito muito lua-de-mel. Noivo em lua-de-mel não deve ser perturbado, mas isso sempre tem um tempo”, afirmou o senador Heráclito Fortes (DEM-PI). O senador disse que a oposição está disposta a lutar para “manter a paz” no Senado após o afastamento de Renan em meio às articulações para a sucessão do peemedebista.
Assim como o democrata, o tucano Arthur Virgílio (AM) também se mostrou disposto a colaborar com o clima de “paz e amor” instalado no Senado nesta semana sob o comando de Viana. “Ele está indo muito bem, eu não esperava diferente. Vejo o sentimento de ver a Casa funcionar e percebo o sentimento de fazer o senador Tião dar certo. Mas o PSDB, que não tem nada contra o nome de Tião, reconhece que a primazia deve caber ao PMDB”, disse.
O líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO), considerou “natural” o petista conseguir reduzir a tensão na Casa após a licença do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). “Nós estávamos trabalhando, mas nos últimos dias a coisa tinha esquentado. Conseguimos avançar na votação das matérias esta semana”, disse Raupp.
Estilo
Viana surpreendeu os colegas e os funcionários ao chegar diariamente por volta das 7h30. “Eu acordo com os passarinhos, sempre foi assim”’, brincou ele, tentando explicar a razão que o leva a madrugar no Senado. Ele demonstrou que gosta da pontualidade britânica: iniciou a maior parte das votações no plenário às 16h - o horário previsto pelo regimento interno do Senado. Sorridente, o petista afirma que respeita as diferenças entre oposição e governo. Ouve e conversa, mas impõe suas determinações - o que ocorreu com as votações, limpando a pauta da Casa e correndo contra o tempo para acelerar as discussões sobre a CPMF. Nos bastidores, os senadores acompanham as articulações de Viana para se consolidar como líder político capaz de permanecer no comando do Senado.
Oficialmente, porém, o petista nega qualquer negociação neste sentido: disse que a presidência da Casa pertence ao PMDB e que não está na disputa. Intrigas Apesar de evitar críticas ao titular do cargo - que pediu licença por 45 dias -, Viana tomou atitudes que desagradaram aliados do peemedebista. A reportagem apurou que, cumprindo determinações do presidente interino, objetos pessoais de Renan - como escova de dentes, creme dental e pente - foram retirados da Presidência do Senado e colocados em uma sacola de supermercado.
A sacola teria sido deixada no corredor em frente ao gabinete pessoal de Renan - cuja porta estava fechada- e acabou encontrada por uma funcionária da limpeza, que encaminhou o material à primeira servidora que chegou ao local. Para aliados de Renan, o comportamento de Viana foi inadequado uma vez que poderia ter negociado o remanejamento dos pertences por meio de um acordo prévio. Como o petista está interinamente na presidência, amigos do peemedebista classificam seu gesto como “deselegante” - uma vez que Renan poderá retornar ao seu gabinete após a licença se não se desligar em definitivo da presidência.